Lógica local: não há mais desmate; não há mais mata

João Domingos - O Estado de S.Paulo

Prefeito admite que só restou 11,32% de floresta em Tucumã (PA) e culpa o governo pela situação crítica

O centro-sul do Pará transformou-se num gigantesco pasto. Isso pode ser visto a olho nu, seja do chão, onde o horizonte se perde na imensidão verde do capim, ou pelo ar, em sobrevôos, quando de vez em quando é possível ver apenas pequenas nesgas de mata. Madeiras nobres como mogno, castanheira, ipê e cumaru deram lugar ao capim das espécies brachiária, brachiária humidícula e mombaça, espécies exóticas, que se adaptaram muito bem na região. Com a umidade do ar, chuvas e calor, crescem tanto que alcançam o pescoço de bois e vacas. Há pastagens já totalmente formadas, sem resquícios de árvores; há também pastagens novas, onde a mata foi posta abaixo há pouco tempo e, em muitos casos, os troncos nem foram retirados ainda. Os pastos mais antigos começaram a ser formados nos anos 1970. Preocupado com a ocupação da Amazônia, o governo militar criou o Grupo Executivo de Terras do Araguaia/Tocantins (Getat) e passou a incentivar a chegada dos colonos. Para entregar um título provisório, exigia que pelo menos metade da área fosse preservada. No governo Fernando Henrique (1995-2002), a área de desmatamento foi reduzida a 20%, o que foi mantido pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É uma exigência que ninguém respeita. SÓ NOS MORROS"Aqui na minha cidade não há mais desmatamento. Não porque os fazendeiros decidiram preservar, mas porque não há mais nada o que desmatar. De cobertura florestal sobraram 11,32%, assim mesmo porque está em cima dos morros ou em áreas alagadas", diz o prefeito de Tucumã (960 km de Belém), Alan de Souza Azevedo (PR), formado em Engenharia Florestal. Para Alan, a culpa pelo desmatamento da Amazônia na região é do governo. "Não há fiscalização, não há incentivo para a preservação, não há regularização dos títulos fundiários, não há nada". Como o fazendeiro pensa no lucro e na sobrevivência, se tem uma área de mata pela frente, ele derruba. Considera que, em pé, lhe é prejudicial, porque ele não pode utilizá-la. É como se fosse penalizado por preservar a Amazônia.Nesse ritmo de desmatamento e transformação de tudo em pastagens, o centro-sul do Pará tornou-se o grande pólo de pecuária do País. Só para se ter uma idéia do tamanho do rebanho bovino na região, basta uma comparação. Uberaba, em Minas Gerais, tradicionalmente é a capital brasileira do zebu. Tem 220 mil cabeças de gado, do filhote ao boi adulto, de acordo com a Secretaria de Agricultura do município. Apenas a cidade de Santana do Araguaia, no extremo sul do Pará, tem mais que o dobro, exatamente 565.145 cabeças de gado. Números pequenos, se comparados com os de outros municípios. Cumaru do Norte, município criado há 15 anos a partir de um garimpo de ouro, com 10.327 habitantes, dos quais apenas 4 mil na área urbana, dispõe de um rebanho em torno de 1 milhão de cabeças. Avançando-se uns 300 km para oeste, chega-se ao município com o maior rebanho do País. Há algum tempo na lista dos que mais desmatam, São Félix do Xingu tem 2 milhões de cabeças de gado. Com tanto atrativo, grandes frigoríficos e laticínios já foram para a região. Lá se instalaram e desenvolvem atividades econômicas. ?DEIXEI 20%? O trânsito de caminhões para o transporte de gado é intenso. O governo do Pará está pavimentando a PA-279, que liga Xinguara a São Félix. Faltam apenas 100 km. Mas logo o asfalto deverá ficar pronto. O trecho já está terraplenado. Pelo menos 15 pontes estão sendo liberadas para trânsito. Com isso, o valor da terra está aumentando. No ano passado, 1 alqueire goiano (4,85 hectares) de terra valia R$ 8 mil. Agora, vale R$ 12 mil. O desmatamento mais comum é feito com tratores de esteira, que derruba tudo, árvores grandes e pequenas o mais rapidamente possível. "Quando cheguei aqui, não usei nenhuma motosserra. Pus tratores na mata para fazer a derrubada", conta Adebelto Cândido, o Betinho, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de São Félix. Goiano de Firminópolis (cerca de 120 km a sudoeste de Goiânia), Betinho chegou à região ainda nos anos 1990. Comprou um pedaço grande de terra e foi adquirindo novas glebas - hoje tem 3.986 hectares. Diz que tudo está legalizado pelo Instituto de Terras do Pará. Qual é a área preservada? "Deixei 20%. Lá ninguém vai tocar", diz ele. Pela lei, a situação deveria ser exatamente o contrário: 20% de desmate e 80% de área preservada. Betinho tem 7 mil cabeças de gado nelore, raça que predomina na região, ideal para o corte. "Tem quatro anos que não derrubo nada." Ele conta que pretendia comprar uma área na Terra do Meio para fazer novo desmate. Depois do assassinato da freira Dorothy Stang, em 2005, em Anapu, Betinho recuou diante da decisão do governo de transformar um pedaço dali em reserva florestal. "Ia arrumar complicação." A reserva pega parte de São Félix do Xingu, que tem dois terços protegidos por reserva florestal. A mata foi abaixo no terço restante. Atrás do gado vem o milho, ração para bois e vacas. Também há milho no centro-sul do Pará. A soja ainda não chegou. A cana-de-açúcar já aparece em Rio Vermelho e Eldorado dos Carajás.