Livro gera polêmica na ''cidade dos gêmeos''

Ariel Palácios, Elder Ogliari e Karina Toledo - O Estado de S.Paulo

Cientista nega tese de que Mengele fez manipulação genética no RS

A tese de que o médico nazista Josef Mengele estaria por trás da alta taxa de nascimento de gêmeos na cidade gaúcha de Candido Godói - publicada recentemente no livro Mengele - O anjo da morte na América do Sul, do historiador argentino Jorge Camarasa - voltou a dar notoriedade ao pequeno município nas últimas semanas. A teoria, porém, é refutada por especialistas ouvidos pelo Estado. Segundo Camarasa, um dos principais investigadores sobre a presença de refugiados nazistas no Cone Sul, a estadia de Mengele na cidade a partir de 1963 coincidiu com uma disparada do nascimento de gêmeos. Na época, a média chegou a ser de 1 em cada 5 partos. Hoje, segundo a prefeitura local, é 1 em cada 20 partos - igual à média mundial. Os gêmeos eram a obsessão de Mengele, que durante a Segunda Guerra fez várias experiências com crianças judias. Em 1960, o médico fugiu para o Paraguai. Instalou-se na cidade de Hohenau, comunidade germânica sobre o Rio Paraná. De lá teria começado a visitar Candido Godói e, com o nome de Rudolph Weiss, teria trabalhado por três anos como veterinário no município. Reunia-se com fazendeiros, aos quais propunha "melhorar o gado". Mas também extraía sangue de mulheres e realizava outras "intervenções médicas". Para a geneticista Carla Franchi Pinto, especialista em gemelologia, Mengele não teria tecnologia para manipular embriões na década de 60. "Hoje é possível criar gêmeos monozigóticos (mais informações nesta pág.) in vitro, mas é preciso um laboratório refinado. Mengele nem sequer teria ultrassom para retirar os óvulos, muito menos um micromanipulador de embriões", diz Carla. "O máximo que ele poderia ter feito é dar hormônios para estimular a poliovulação, o que poderia resultar em gêmeos dizigóticos. Mas isso afetaria somente aquelas mulheres tratadas por ele, o efeito não se perpetuaria pelas gerações seguintes." De acordo com o levantamento feito em Candido Godói entre 1990 e 1994 pela pesquisadora do Hospital das Clínicas de Porto Alegre Ursula Matte, a proporção de gêmeos dizigóticos (53%) e monozigóticos (47%) lá é quase equivalente, enquanto o normal é de 70% e 30%. "O nascimento de gêmeos se concentra em algumas famílias. Essas têm tanto monozigóticos como dizigóticos e isso dificulta a explicação do fenômeno", diz Ursula. "Provavelmente são famílias que quando se mudaram para lá levaram a predisposição genética para um ambiente isolado. A comunidade é pequena e os casamentos acabam acontecendo entre parentes distantes." Ursula relata que fenômenos semelhantes foram verificados em cidadezinhas da África e da Índia. " Do ponto de vista da genética, isso não é uma coisa rara." CIDADE DIVIDIA "As pessoas em Candido Godói admitem a presença de Mengele, mas não o indicam como responsável pela disparada de gêmeos. Elas afirmam que o boom aconteceu primeiro e que Mengele, obcecado pelo tema, foi ver as coisas de perto", diz Camarasa. O prefeito de Candido Godói, Valdi Luis Goldschmidt (PMDB), gostou de ver a cidade nos jornais e sites de vários países, mas refuta a teoria do argentino. Para ele, o mais provável é que os descendentes de alemães que migraram do Vale do Sinos para a região já geravam muitos gêmeos. O prefeito também admite a hipótese de que uma série de casamentos consanguíneos tenha contribuído para aumentar a incidência. Ressalta que moradores da região encontram explicações na água milagrosa que bebiam. "Mas isso é o lado pitoresco do caso." A cerca de 520 km de Porto Alegre, quase na divisa com a Argentina, a cidade tem 6,6 mil habitantes. Mas nem todos compartilham da desconfiança do prefeito. O advogado Jacinto Anatólio Zabolotsky pesquisou o tema com o médico Anecir Flores da Silva e está convicto de que Mengele andou na região. Depois de viagens a vários municípios e entrevistas com moradores do Rio Grande do Sul, Argentina e Paraguai, ele acredita que o alemão que pedia hospedagem apresentando-se como Rudi Wiess era Mengele. A pesquisa transformou-se no livro Meus Dois Corpos, que Zabolotsky e Silva publicaram em 2007. Relatos transcritos pelos dois indicam que pessoas que acolheram Wiess espantaram-se com a possibilidade de fazer inseminação artificial em humanos mencionada pelo alemão, e interromperam a conversa porque o assunto contrariava sua religião. Segundo Zabolotsky, é possível que muitos moradores tenham conhecido o alemão, mas prefiram evitar o assunto. "Há pessoas que temem perseguições." Nos anos seguintes à Segunda Guerra, os descendentes de alemães sofreram discriminação.