Literatura da maturidade

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

A escritora Lya Luft, que completará 70 anos em setembro, acaba de lançar seu novo livro, O Silêncio dos Amantes

Escritora de poesia, romances, contos e ensaios, Lya Luft tem 17 livros em catálogo - incluindo o best seller Perdas e Ganhos (Record). E acaba de lançar O Silêncio dos Amantes (Record), marcando a volta à ficção e aos contos, depois das publicações com ensaios. O mistério da morte é tema recorrente em sua obra. Seria resultado das perdas que sofreu em sua vida? "Fiquei viúva cedo demais, mas também escrevo a partir do que observo das pessoas. O escritor fala da experiência de todos." Sua história de vida é curiosa. Nasceu e cresceu na pequena comunidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, onde falava português e alemão - até proibirem o segundo idioma, quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial. Na grande biblioteca do pai, teve acesso ao melhor da literatura alemã, francesa e internacional. Acabou estudando letras anglo-germânicas. Mas se apressa em dizer que é muito brasileira, e que a raiz alemã é distante em sua família, apesar de ter traduzido obras de escritores daquele país, do calibre de Thomas Mann e Günter Grass. Do inglês, já traduziu autores como Virginia Woolf. "Fazia mais traduções do alemão, porque havia poucos profissionais desse idioma naquela época", conta ela, que hoje raramente faz esse tipo de trabalho. Lya gosta do desafio de decifrar linguagens. "É preciso que o tradutor tenha uma paixão por literatura, para que aproxime uma cultura da outra. Esse é o maior desafio." A escritora mudou-se para Porto Alegre quando ingressou na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS). Foi lá, aos 20 e poucos anos, que conheceu o professor e lingüista Celso Pedro Luft, por quem apaixonou-se perdidamente, escrevendo intensos poemas de amor. Foi correspondida, apesar de que, na época, ele era Irmão Marista (ou seja, ligado a esta congregação religiosa). Largou os votos religiosos, "mandou até uma carta ao Vaticano pedindo a desobrigação", e casou-se com a aluna quase 20 anos mais nova. Ficaram juntos por 22 anos, e tiveram três filhos. Acabaram divorciando-se. Foi então que Lya conheceu o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino - e, na casa dos 40, viveu outra paixão arrebatadora. Deixou até a amada Porto Alegre para viver com ele na capital carioca. Mas a convivência intensa foi bruscamente interrompida. Depois de três anos juntos, o segundo companheiro morreu. Abatida, Lya voltou para Porto Alegre e passou quatro anos sem manter um relacionamento. Porém, a amizade com o primeiro marido continuava firme, e os dois decidiram casar-se novamente. Anularam a separação judicial e voltaram a morar juntos. Só que, meses depois da volta de Lya, ele teve um derrame, que acabou levando-o à morte. "Cuidei dele por três anos", lembra. Foi a segunda grande perda para Lya, em pouquíssimo tempo. Há cinco anos, a escritora conheceu o engenheiro carioca Vicente Brito Pereira, com quem mora há três anos. "Nossa convivência é maravilhosa. A vida é muito mais rica com uma relação", comemora. Mas faz uma ressalva: - As mulheres se submetem muito facilmente a relacionamentos horrendos. Se é ruim, é melhor ficar sozinha. É um luxo estar bem só... Apesar da independência financeira, as mulheres ainda têm um fantasma quando se trata de relacionamentos, de precisar estar com um homem. FELIZ 70 Aliás, Lya mostra-se entusiasmada quando fala sobre as conquistas femininas. "Hoje as mulheres de 70 estão vivendo a vida, e as de 80 estão aprendendo a usar a internet", empolga-se. "O curioso é que todos desejam viver muitos anos, mas ninguém quer envelhecer." Ela própria está adorando o tempo que dispõe hoje para a contemplação: pode passear no parque e curtir os netos, bem diferente do ritmo de trabalho que tinha aos 30, 40 anos, quando cuidava dos três filhos solteiros. Lya Luft faz parte da geração de escritoras que despontaram na faixa dos 40 anos, como Adélia Prado, e confessa que não acompanha a nova literatura produzida por mulheres. Caseira, gosta mesmo é de ficar em casa com o marido. Não se preocupa em ir a lançamentos de livros, restaurantes da moda nem a Paris. "Estou tentando simplificar e me libertar. Por que todos precisam fazer tudo o que a mídia diz que é bom?" Lya senta-se para escrever diante do computador apenas quando tem idéias. Atualmente, prefere ler ensaios e biografias, como a recentemente lançada sobre Einstein. Das leituras da juventude, ficaram gravadas em sua mente a poesia de Cecília Meireles e Mario Quintana, e os contos de Rubem Braga. Apesar disso, conta que foi influenciada mesmo pelos contos de fada que ouviu na infância, dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen. "A raiz das minhas histórias vem muito do mágico e do trágico desses contos de fadas." Prestes a completar 70 anos, em setembro, acredita que continua sendo a mesma que aos 4 anos queria entender o mundo e descobrir onde moram as fadas e os duendes. Continua buscando-os por meio das palavras.