Leitura expressa

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

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Como surgiu a ideia de escrever um livro de memórias?

Uma conversa na cozinha entre velhos amigos, essa era a ideia. O editor Felipe Greco acreditou em uma história recheada de emoções e sabores, e na essência do livro: simples e, ao mesmo tempo, farto de memórias. Espero que tenhamos alcançado esse objetivo.

 

Por que a comida aproxima tanto as pessoas?

Independentemente da tradição, da cultura, etc., todos os povos do mundo precisam do alimento. É a comida que nos mantém vivos. Creio que vem daí esse prazer que o aroma dos alimentos nos traz. É um sentimento universal, de sobrevivência, por um lado, e de comunhão, por outro. Quando nos alimentamos, é como se disséssemos inconscientemente: ‘gosto e quero continuar vivo’. Não é à toa que, em todas as religiões, a comida (ou o ato de oferecer, valorizar, celebrar os alimentos) ganha especial destaque.

 

O que acha dos momentos, cada vez mais raros, em que as famílias modernas compartilham as refeições?

Infelizmente, com dias cada vez mais curtos para cumprir o turbilhão de compromissos, muitas famílias acabam se desencontrando, substituindo uma alimentação saudável por um lanche rápido. Pior ainda: trocam esses momentos de comunhão em torno da mesa por um prato no colo, diante da televisão (muitas vezes, comida congelada, aquecida no aparelho de micro-ondas). Não é que eu seja saudosista (sei que hoje o contexto familiar é diferente do de décadas atrás), mas penso que seria muito importante que as famílias, por mais modernas que sejam, se esforçassem para promover de vez em quando esses encontros "gastronômicos". E que olhassem mais uns para os outros. Dialogassem. Compartilhassem mais suas vidas. Sem dúvida, todos ganhariam muito com isso.

 

Qual a primeira imagem que vem à sua cabeça quando, ainda pequena, começou a xeretar as panelas?

Meu pai (Nacin Cury), chegando em casa, sorridente e indo logo para a cozinha preparar um novo prato que aprendera por aí, em uma de suas inúmeras viagens a trabalho. Cansado, porém feliz. Um clima delicioso tomava conta da cozinha, da casa e, principalmente, de mim, que adorava prestar atenção a tudo que ele fazia, como cortava isso, como misturava aquilo...

 

No livro, as histórias são complementadas por receitas gostosas e simples. Como se decidiu por elas?

Muitas pessoas têm trilhas sonoras para determinados momentos da vida; outros, aromas. Atrevo-me a dizer que tenho um pouco de cada coisa: o som das tampas, dos talheres e até mesmo o silêncio de um cozinheiro solitário. Também guardo perfumes, temperaturas e, claro, sabores. Este foi o mote: revisitar minhas memórias e, ao mesmo tempo, preparar um banquete afetivo para amigos queridos e de longa data. Um banquete no melhor sentido da palavra, ou seja, dar o melhor de mim aos meus convidados – no caso, os leitores. Pratos simples, porém, feitos com muito amor.

 

Que influências absorveu do seu pai, cozinheiro de mão cheia?

Toda influência, sobretudo humana. Meu pai não preparava os alimentos para ele, mas para dar prazer às pessoas que ele amava, seus convidados, gente mais íntima ou nem tanto. Os árabes têm muito isso: de receber as pessoas, compartilhando alimentos. É uma forma de agradecer e dizer que a visita é bem-vinda.

 

Quem mais a incentivou a montar o bufê e quantos anos tinha na época?

Eu estava com 28 anos, quando Diva Latorre, mãe de uma grande amiga, me perguntou: "por que você não faz do seu talento um negócio?" Este foi o estopim... Depois, muito trabalho e aprendizagem constante.

 

Qual o segredo de transformar uma paixão – no seu caso, a culinária – em um trabalho bem-sucedido ?

Dedicação e uma relação de honestidade com o ato de cozinhar. Trabalhar com aquilo de que se gosta é uma bênção, um privilégio.