Laboratórios anunciam fabricação de vacina contra a gripe suína

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

Um dia após declaração de pandemia, empresa diz que dose fica pronta até setembro; países fazem encomenda

No dia seguinte à declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS) da primeira pandemia de gripe em 41 anos, começou uma corrida entre governos e laboratórios pela produção e fornecimento de vacinas contra o vírus influenza A(H1N1). Atualmente há medicamentos antivirais, mas não prevenção.O anúncio de maior impacto veio da Novartis, que diz ter conseguido chegar a uma primeira versão da vacina e que o produto pode estar no mercado em setembro. Durante o dia, as ações da empresa na Bolsa de Valores de Zurique chegaram a subir. O Instituto Butantã informou ter capacidade para iniciar a produção em outubro, mas em pequena quantidade.A GlaxoSmithKline afirmou que estaria pronta em "apenas algumas semanas" para iniciar uma produção em larga escala de vacinas. Já a Sanofi-Aventis informou estar trabalhando em uma versão própria. Segundo a OMS, quase 30 mil pessoas já foram afetadas pelo vírus A(H1N1) em 74 países, com 145 mortes. No Brasil, os casos passaram para 54, com mais um em Minas e outro na Bahia.A corrida em busca da produção da vacina, no entanto, explicita as contradições do sistema de saúde público mundial e se transforma em um teste para a OMS. Não há acordo sobre como essas vacinas, recursos e remédios chegarão aos países mais pobres. Com a declaração de pandemia anteontem, a entidade elevou o nível de alerta (que varia de 1 a 6) para o máximo diante da constatação de que a disseminação é global. Sem poder conter o vírus, a OMS passou à estratégia de mitigar os efeitos. Para isso, a vacina será fundamental.PATENTEO método usado pela Novartis para chegar a uma vacina é patenteado. Governos de países emergentes temem que o produto final também tenha proteção. A tecnologia usada é baseada em células, e não no desenvolvimento da vacina em ovos como ocorre tradicionalmente. O problema é que, antes mesmo da produção final da vacina, alguns dos países ricos já depositaram suas encomendas às multinacionais. Só a Novartis já recebeu 30 encomendas de diferentes países. França, Canadá, Reino Unido e Estados Unidos assinaram acordos há meses. No total, a estimativa é de que a capacidade mundial de produção de vacinas chegue no médio prazo a 2,4 bilhões de doses. Mas ainda não há certeza se a proteção será garantida com uma ou duas doses. Com mais da metade da população mundial desprotegida, a OMS admite que está preocupada com a possibilidade de que as populações mais pobres simplesmente sejam deixadas sem vacinas, diante dos contratos dos países ricos. Mas insiste que, até agora, a maioria das regiões atingidas foi países ricos. "A pandemia é um sinal para comunidade internacional de que precisa atuar de forma conjunta, em solidariedade, para garantir que nenhum país seja deixando sem ajuda", diz Margaret Chan, diretora da OMS.Em maio, Chan e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, se reuniram em Genebra com empresas de todo o mundo, inclusive o Instituto Butantã, para tentar chegar a um acordo sobre o fornecimento de vacinas aos países mais pobres. Mas os únicos que prometeram doação foram os emergentes, indicando que dariam 10% de sua futura produção de vacinas à OMS para distribuição. O chefe de operações humanitárias da ONU, John Holmes, também admite que a organização está preocupada com o impacto que o vírus A(H1N1) pode causar nos países em desenvolvimento. "A América Latina e a África são regiões que nos preocupam, principalmente as áreas mais vulneráveis", disse. O mesmo dilema ocorre na distribuição de antivirais. A Roche praticamente domina o mercado e fez doações de 10,6 milhões de doses do remédio para a OMS, distribuídas para 121 países. Mas governos alertam que isso é uma gota d?água diante do que seria necessário. Só a França conta com mais de 30 milhões de doses. Chan evitou dar seu aval à quebra de patentes para que se possa produzir o remédio genérico. Hoje, há só uma empresa indiana que o produz, além da Roche.