Jovem morre por não ter R$ 10 para o remédio

Tiago Décimo - O Estado de S.Paulo

Farmácia não quis vender ?bombinha? para asma e paciente desmaiou

Estudante de Pedagoga, casada e mãe de dois filhos - uma menina de 9 anos e um menino de 5 -, a recepcionista Viviane Brito Barbosa, de 29 anos, morreu por não ter R$ 10 a mais no bolso na hora de comprar um remédio para asma.Moradora do bairro periférico de Fazenda Grande do Retiro, em Salvador (BA), Viviane começou a ter um ataque asmático em casa, na noite de quarta-feira. Sem conseguir localizar sua "bombinha" - equipamento que dispara um jato de broncodilatadores diretamente nas vias aéreas do paciente -, resolveu seguir para a farmácia mais próxima, a Farmácia Popular, para comprar outra. Apesar de ter esse nome, o local não faz parte do programa homônimo do governo federal.Vendo a urgência da situação, o padrasto de Viviane, o aposentado Renê Moreira, prontificou-se a ir junto, mas esqueceu a carteira em casa."Chegando lá, Viviane viu que só tinha R$ 12 no bolso - e o remédio custava R$ 22", lembra Moreira. "Só lá notei que eu estava sem minha carteira." De acordo com ele, a crise foi se agravando e as duas funcionárias da farmácia não se mobilizaram para vender o medicamento, nem quando ele se ofereceu para deixar os documentos do carro como prova de que voltaria para arcar com a despesa. Vendo Viviane com os lábios arroxeados, Moreira resolveu desistir da negociação e levá-la diretamente para o centro de saúde mais próximo, no bairro de São Caetano. Ela desmaiou no caminho e sofreu uma parada cardiorrespiratória pouco antes de chegar ao hospital. Não houve tempo para que os médicos pudessem reanimá-la."As funcionárias da loja conheciam nossa família, a gente sempre comprava lá, não faz sentido", revolta-se o marido de Viviane, Márcio Santos, de 34 anos. "O que elas fizeram foi absurdo, elas foram completamente negligentes com a vida de uma pessoa. Podiam ser elas do outro lado do balcão." Segundo o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado da Bahia, Altamiro José dos Santos, o caso é "lamentável". "Os vendedores e comerciantes precisam entender que nosso ramo é diferenciado, que nós lidamos com a saúde humana", afirma. "No nosso caso, a visão mercadológica tem de ser flexível."Santos afirma que as atendentes não eram farmacêuticas e, por isso, o conselho não pode aplicar sanções contra elas. Segundo os familiares da vítima, as funcionárias que estavam trabalhando naquela noite foram substituídas por outras já na quinta-feira, mas a direção do estabelecimento não foi localizada para comentar o caso.