Jogo ''certo'' ajuda no aprendizado

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Especialistas mostram como identificar brinquedos que respeitam idade e fase de desenvolvimento da criança

Guardadas as devidas proporções, um brinquedo é como um remédio: é preciso vir com bula que tenha indicações de uso, embalagem clara sobre o que traz em seu conteúdo, ser empregado no momento certo e, em caso de dúvidas, ter alguém para pedir esclarecimentos. A analogia, de um especialista em educação e defensor da importância do brincar, fica como dica e alerta para os pais ajudarem seus filhos a aproveitar a experiência da brincadeira, sem caírem em equívocos que podem ser prejudiciais ao desenvolvimento infantil."Todos os brinquedos bons têm na embalagem, e dentro dela, uma verdadeira bula com as indicações de faixa etária, explicações sobre a forma de usar e interagir com a criança e quais aspectos cognitivos ou motores ele pode estimular", explica o especialista em inteligência e cognição Celso Antunes, da Associação Internacional pelos Direitos da Criança Brincar, da Unesco. "É importante ainda conversar com a criança, para que ela saiba a importância do que está recebendo."E as atenções devem começar no momento da compra na loja. "É um problema esses brinquedos lacrados e fechados, sem mostruário. O pai compra pela foto, chega em casa e quando abre, percebe que era diferente do que imaginava e que a criança não vai conseguir usá-lo", afirma Irene Maluf, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia. "Mais de 90% dos pais pedem orientações assim que entram na loja. Eles querem saber como brincar e quais benefícios aquele brinquedo pode trazer para as crianças", conta Juliana Pereira Nunes, da loja de brinquedos educativos Trenzinho, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. "Por isso deixamos tudo exposto."Mãe de uma menina de 5 anos, a empresária Ana Cristina Araújo aprendeu na prática a pedir ajuda para escolher o melhor presente. "No começo, eu comprava o que eu gostaria de brincar, lembrando a minha infância. Acho que por ser mãe de uma menina, era meio natural isso", conta.Aos poucos, vendo que estava comprando brinquedos acima da faixa etária da filha, e que ela fazia pouco proveito, decidiu ter cuidado. "Um dia comprei um brinquedo com peças pequenas, ela não entendia e comeu (as peças). O pediatra me deu uma bronca e entendi", diz. A IDADE CERTADadas as orientações gerais, outro aspecto muito importante é comprar o brinquedo apropriado para cada idade. Querer pular etapas pode prejudicar a criança, já que ela receberá estímulos para os quais não está preparada. Além disso, perderá a oportunidade de desenvolver as habilidades correspondentes à sua idade. Apesar de envolver um aspecto subjetivo, que inclui visão de mundo e posições ideológicas, há alguns fatos e teorias de desenvolvimento infantil que ajudam os especialistas a fazerem as indicações. O correto é que todos os fabricantes tenham psicopedagogos ou psicólogos para fazerem essa análise. "Tem fabricante que coloca aleatoriamente as faixas etárias, outros são muito sérios. Geralmente os brinquedos importados são os melhores, porque trazem uma análise séria de vários especialistas", diz Irene. Basicamente, parte-se do princípio de que as crianças têm fases específicas de desenvolvimento (mais informações nesta página). "As recomendações são referências importantes, mas não regras. Até porque regra sempre abrigou suas exceções", explica Ronaldo Moreira, presidente da Associação Brasileira de Brinquedos Educativos. "Há brinquedos típicos da primeira infância que se tornaram populares entre faixas etárias mais adiantadas e até mesmo adultos." Essas variações, aliás, abrem espaço para divergências. Um exemplo é o brinquedo "Jogo da Verdade - de Menina a Mulher". Baseado num livro da estilista Drica Pinotti, ele traz cartas com perguntas, castigos e um tabuleiro, onde cada personagem é representado por um pino. As meninas vão andando no tabuleiro e tirando as cartas, tendo que responder as perguntas ou pagar os castigos.Indicado inicialmente a partir dos 8 anos, e depois corrigido pelo próprio fabricante para 10 anos, o jogo traz perguntas como "Qual sua maior neura em relação ao seu corpo?", "Você já traiu seu namorado?", "O que tem de rolar num primeiro encontro?" entre outras, que tratam de baladas, cantadas, dietas, vaidades com o corpo e relacionamentos."Esse jogo foi vendido com a indicação de 8 anos. Em uma análise posterior de nossas especialistas, a faixa etária foi reformulada e agora ele é indicado para 10 anos", explica Luciano Tadeu Souza, diretor da Algazarra, empresa que fabrica o jogo. "Eu sei que é polêmico, é um tema que as pessoas vão discordar. Tem gente que vai achar cedo demais, outros vão achar apropriado. Mas essa indicação etária é a posição das nossas psicopedagogas, que analisaram o jogo."Para Irene, essa indicação está adiantada e o tipo de conteúdo do jogo estimula a erotização precoce. "Cabe aos pais decidir se querem dar esse aval. Mas devem estar cientes de que há consequência. A criança vai agir como adolescente, sem estar madura para lidar com as consequências dos atos dos adolescentes", diz ela, que faz analogia com roupas compradas pelos próprios pais para as meninas. "É a mesma coisa com mães que vestem as crianças como adultas. Que compram roupas de adulto, mas tamanho pequeno. Isso tudo tem consequências." AS ETAPAS Dos 10 aos 18 meses: a criança começa a sentar, engatinhar e desenvolver senso de equilíbrio e percepção espacial, podendo acompanhar brinquedos que se deslocam, como bonecos com rodinhas Até 2 anos: a criança gosta de explorar o corpo e objetos e costuma brincar de forma isolada. As atividades interessantes são as que estimulam a sensibilidade e a coordenação motora Dos 2 a 3 anos: nesta fase já é possível introduzir o jogo simbólico, com atividades relacionadas ao "faz-de-conta". Brincadeiras que façam dançar, cantar, pular são boas Dos 3 aos 4 anos: a criança passa a ter uma percepção melhor dos seus limites e dos limites dos outros e também de ritmos e duração de tempo Dos 4 aos 5 anos: nesta idade, a criança aprecia brincadeiras que desenvolvam o imaginário, a fantasia e imitem o mundo adulto Dos 6 aos 8: a criança começa a desenvolver o raciocínio lógico, o que a habilita a participar de jogos com regras mais elaboradas