''''Isso não muda nada'''', diz a mãe

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Cacilda Galante quer cuidar da filha ?enquanto Deus permitir?

Enquanto da porta pra fora, entidades religiosas, representantes de vários grupos da sociedade civil e especialistas discutem o caso de Marcela, usam sua imagem para defender ou criticar pontos de vista, levantar a questão da permissão de aborto de fetos anencefálicos, dentro das paredes de sua casa a única coisa que importa é o carinho e a atenção que merece receber. Alheia por opção ao movimento externo, a mãe, Cacilda Galante Ferreira, de 36 anos, só quer cuidar o melhor possível da filha "enquanto Deus permitir". "Não mudou nada. Se não puder tratar dela, não faz diferença (saber o diagnóstico).""Quando Deus vier buscá-la, quero que ele a encontre assim: bonita e forte. Eu vou sofrer muito quando isso acontecer, mas sei que Deus vai estar comigo nessa hora", diz, fazendo carinho na barriga da bebê, que só dorme ajeitada de lado no berço, com o capacete que usa para respirar e a sonda pela qual se alimenta. Como gasta pouca energia, ela está até uns quilos acima do peso e agora deverá tomar menos leite.A mãe assumiu todos os cuidados, instalada em uma casa próxima à Santa Casa da cidade para garantir um atendimento rápido em caso de emergência. "As enfermeiras tinham medo de mexer na cabeça dela, nessas dobrinhas. No primeiro dia fui na farmácia, comprei uma caixa de cotonetes e limpo no banho direitinho, com sabão. Infecção ela não vai pegar." O topo da cabeça de Marcela não é formado. Há uma cobertura como de uma bolha que forma dobras e solta uma secreção. A mãe mantém a bebê com uma toca. Na parte de trás da cabeça, há pele e cabelos. Ela consegue sentar, chora, reage a dor e a estímulos como carinho ou cócegas."Fico aqui o dia todo com ela, é minha missão, não importa o quanto ela viva. Fico aqui curtindo essa minha gordinha", repete Cacilda. Na cama ao lado, ela expõe os presentes que a filha começa a ganhar pelo primeiro aniversário: dois vestidos brancos, "parece de daminha", meias e calcinhas rendadas e com laços cor de rosa, vários brinquedos, um carrinho que anda. "Todo mundo quer ajudar, perguntam se preciso de alguma coisa. Eu só peço oração."