Isabel Allende mais de perto

Keila Bis - ESPECIAL PARA O SF - O Estado de S.Paulo

Aos 67 anos, tão intensa quanto as mulheres de seus livros, a escritora produz sem trégua e dedica-se à sua Fundação

Muito provavelmente, Isabel Allende estava usando sapatos de salto alto no dia em que presenciou um assassinato, quando visitava uma favela do Rio de Janeiro. Não os deixa nunca. Com apenas 1,50 metro de altura, já se sentiu muito desconfortável por causa da baixa estatura. Talvez um dos momentos mais constrangedores tenha sido nos Jogos Olímpicos de Inverno da Itália, em 2006. Convidada para representar a América Latina, durante o desfile, seguiu atrás da alta (e também de saltos) Sophia Loren. Resultado: ficou debaixo de uma bandeira e pouca gente soube quem era aquela representante "sem cabeça".

 

Mas isso não se compara à péssima experiência no Rio, há mais de 10 anos. Do outro lado da rua, a menos de 10 metros, viu um homem se aproximar de outro que estava no ponto de ônibus e atirar sem piedade. Uma cena que a chocou, ainda mais depois de ter passado dias interessantes - para dizer o mínimo! - com Jorge Amado, que a levou para assistir a uma cerimônia de candomblé em Salvador. Aprendeu, inclusive, com a cozinheira do escritor, a preparar receitas que, mais tarde, seriam incluídas no seu livro Afrodite: Contos, Receitas e outros Afrodisíacos. Este é um dos 18 já publicados. O último foi La Islã Bajo el Mar, no segundo semestre de 2009.

 

Agora, Isabel dedica-se a escrever mais um. "A protagonista é uma jovem americana de 20 anos, e a trama se desenrola em 2009. O que eu posso adiantar é que este livro será muito diferente dos outros, porque, normalmente, eu escrevo sobre o passado e, neste, a história acontece no presente."

 

As mulheres são as grandes estrelas das obras de Isabel, que, mais por superstição do que por disciplina, sempre começa a escrever um livro no dia 8 de janeiro. "Meus livros são principalmente sobre histórias de mulheres. Eu sou feminista desde garota. Tenho trabalhado por elas e com elas sempre."

 

Não é para menos. Isabel cresceu numa família e sociedade machistas. Quando ainda era uma jovem jornalista chilena, trabalhou para revistas e jornais que abordavam a miséria feminina. "Vi muitas mulheres com a violência estampada na cara", relembra. Além disso, na infância, presenciou as dificuldades que a mãe encontrou ao ser abandonada pelo pai, quando Isabel ainda era criança - desde então, nunca mais o viu. Para ela, ser mulher era sinal de muita má sorte.

 

Herança da filha. E por falar em sorte, a escritora vem mudando o destino de meninas e adolescentes do Chile e de São Francisco Bay Area, na Califórnia, onde mora com o segundo marido, o norte-americano William Gordon. "Em 1996, eu criei a Fundação Isabel Allende para homenagear minha filha Paula após sua morte. Ela sempre me pedia para ganhar muito dinheiro com os meus livros, para poder dar aos pobres." Paula morreu no dia 6 de dezembro de 1992, com 29 anos, de uma doença rara, chamada porfiria. Infelizmente, Isabel convive com a sombra deste mal genético que também atingiu seu filho e netos. Embora estejam bem, eles têm acompanhamento médico.

 

"Toda a renda do meu livro de memórias Paula e substanciais contribuições dos outros vão para a Fundação", diz a escritora. Quem comanda a Fundação é sua nora Lori Barra, a segunda esposa do seu filho Nico, que se divorciou da primeira mulher após ela ter lhe contado que era lésbica. O engraçado é que Isabel foi a primeira pessoa para quem ela contou o fato. "Isabel vê as pessoas com a melhor das intenções, nunca as julga e quer sempre ajudar." É a própria Lori, parceira e amiga da escritora, quem a elogia.

 

Desde a época da ditadura no Chile, liderada pelo primo de seu pai, Salvador Allende, Isabel já escondia os fugitivos políticos em sua casa. Depois, por ser jornalista e "saber demais", como ela diz, precisou se exilar na Venezuela com o primeiro marido, e lá viveu durante dez anos. Nunca mais voltou a morar no Chile.

 

Cartas ao avô. Na Venezuela, enfrentou todos os tipos de dificuldades. O casamento não ia bem e logo se separou, não conseguia emprego, os dois filhos eram pequenos, encontrava dificuldades para se adaptar à nova cultura e estava longe da família que tanto amava. Para matar as saudades, começou a escrever cartas ao avô, nas quais narrava as histórias que ele lhe contara sobre os diversos integrantes da família.

 

Após um ano de tantas cartas escritas, o querido avô morreu e Isabel se deu conta de que tinha em mãos um livro, o seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos. "Vendeu 12 milhões de cópias. Foi e ainda é um grande sucesso. Para mim, é um prazer imenso ter sido uma das primeiras pessoas a ler suas obras. Isabel é uma pessoa maravilhosa, muito humilde", conta Cármen Bacells, sua agente literária, reconhecida mundialmente como uma das mais importantes no segmento.

 

Hoje quem visita Isabel na sua casa nova, no alto de uma colina, em San Rafael, Califórnia, é recepcionado por um letreiro na varanda que diz: A Casa dos Espíritos. Pois é, ela diz que, desde os primeiros dias no novo lar, já ouvia ruídos inexplicáveis e chegou a ver duas crianças no pé de sua cama. A mãe, quando foi visitá-la, disse que via os móveis se mexerem.

 

Com ou sem espíritos, a verdade é que Isabel Allende, uma das mais importantes escritoras de romance, julga-se: "Sou forte, afirmativa, mandona, independente, dura algumas vezes, nunca depressiva, saudável, enérgica, generosa, impaciente, crítica, vaidosa, disciplinada, trabalhadora, boa mãe, boa filha, boa amiga, excelente avó, má dona de casa, cozinheira mediana e uma motorista horrível. Não sou muito sociável e sou muito apegada à família. Preciso de silêncio, de muito tempo sozinha, de chá, chocolate e de um cachorro."