Invasões a reitorias mostram mobilização e desorganização

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Tradição estudantil recebeu inspiração adicional da ocupação de um mês e meio da USP, ocorrida em maio

A onda de ocupações desencadeadas após estudantes e funcionários terem invadido por 50 dias a reitoria da Universidade de São Paulo (USP) em maio pode demonstrar duas características do movimento estudantil atual: a capacidade de mobilização, mesmo que apenas de uma parte dos alunos, e a falta de organização, marcada pelas divisões internas e partidárias. A análise é da professora Maria Helena Rolim, chefe do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH). "Tivemos uma fase de muita desmobilização de estudantes depois da redemocratização, houve um período de ausência de participação. Agora a coisa está se movendo novamente. O que é positivo. Eles podem elaborar uma pauta, propor reivindicações. O que complica e preocupa são as divergências internas e a variedade de partidos políticos que influenciam eles", explica a professora. "Desse modo, eles não conseguem unidade de propostas nem uma posição para negociar, discutir. Não conseguem trabalhar em conjunto", diz.Na própria época da invasão da reitoria da USP, que foi acompanhada por ocupações também nos campi da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade Estadual Paulista (Unesp), essa divergência partidária e de correntes ficou evidente. O grupo de alunos e funcionários que liderou o movimento não teve apoio da maior parte dos centros acadêmicos e outros movimentos de alunos iniciaram um protesto pela desocupação. Nas últimas rodadas de negociação para saírem da reitoria, integrantes do PC do B e do PSTU divergiram publicamente sobre qual posição adotar - uns brigando pela continuidade e outros, pelo fim. Mesmo assim, no mês passado, estudantes da Fundação Faculdade de Santo André também iniciaram um movimento semelhante para protestar contra um aumento de mensalidades que teria sido anunciado pela direção da instituição. No meio do semestre, a própria União Nacional dos Estudantes (UNE) chegou a declarar a defesa de uma onda de ocupações pelo País. "É comum estudantes tentarem invadir o espaço público da reitoria das universidades, e o que aconteceu no primeiro semestre pode ter ajudado como uma inspiração para os estudantes agora", afirma o filósofo Roberto Romano, professor-titular de Filosofia da Unicamp. "Mas, ao fazerem isso, num contexto democrático, onde há liberdade de protesto e de manifestação, eles quebram toda a ordem legal que mantém essa própria liberdade", afirma.Para o professor, ao defenderem a tomada de locais públicos, os estudantes perdem a oportunidade de usar o espaço da universidade destinado ao debate, recorrendo à força em vez de a dados e argumentos. "Fazendo isso eles perdem uma coisa importante para qualquer movimento político, que é a legitimidade. Você não tem legitimidade apenas pelas causas que defende, que podem ser nobres, mas pelos modos como as defende. Se você usa instrumentos inadequados, perde a sua legitimidade."