Instituto Dr. Arnaldo será exclusivo para tratamento contra o câncer

Emilio Sant?Anna - O Estado de S.Paulo

Governo paulista decidiu mudar perfil do complexo, em construção há 18 anos e sem data prevista de inauguração

Um centro exclusivo para o tratamento do câncer. Essa é a solução que o governo do Estado quer para o Instituto Doutor Arnaldo (IDA). Após 18 anos de espera e seguidos adiamentos da inauguração, o governo estadual pretende agora mudar o perfil do hospital. A proposta foi feita na noite de anteontem pelo secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, para a diretoria da Fundação Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que deve administrar o empreendimento.O "novo hospital", ainda sem data para ser aberto, deverá chamar-se Instituto de Oncologia de São Paulo (Ioesp). A idéia partiu do próprio governador José Serra e agradou aos membros da fundação. "O secretário tem uma proposta que nos interessou e ainda será avaliada pelo governador", diz Marcos Boulos, presidente da Fundação Faculdade de Medicina da USP. "Estamos mais preocupados em discutir a forma de gestão do hospital."As obras do IDA começaram em 1989, na gestão de Orestes Quércia (PMDB) e passaram por outros três governadores até chegar à gestão de Serra. Apenas neste ano, duas datas de inauguração foram anunciadas. No entanto, os desentendimentos entre a Secretaria de Saúde e a Faculdade de Medicina da USP sobre a forma de gestão impediram que os 726 leitos do hospital - que já recebeu R$ 270 milhões de investimento - fossem abertos à população. Boa parte dos 23 andares já está equipada, o que torna o atraso um problema ainda maior. A intenção inicial do governo paulista era de que o Instituto Doutor Arnaldo - originalmente projetado para ser o Hospital da Mulher - fosse administrado por uma Organização Social de Saúde (OSS). Como fará parte do complexo do Hospital das Clínicas (HC), o gestor mais indicado e preferido pelo governo era a própria fundação da USP.Essa forma de gestão, no entanto, nunca agradou à diretoria da fundação e recentemente as desavenças entre as partes se tornaram públicas. Em setembro, em abaixo-assinado liderado pelo urologista Miguel Srougi, os médicos da USP deixaram clara a resistência. No documento, Srougi denunciava o que para ele seria "uma situação de risco" para a fundação. O modelo de gestão poderia penalizar a FMUSP em momentos de impasse político ou de dificuldades financeiras do Estado.A reação do governo estadual veio em seguida. Em outubro, um decreto publicado no Diário Oficial do Estado, assinado pelo governador José Serra, revogou a transferência do IDA para o HC. Desde então, as negociações não estavam evoluindo e outros parceiros para o projeto eram cogitados.DESENCONTRODesta vez, apesar da boa receptividade dos médicos da USP, a forma de gestão ainda não parece clara - secretaria e fundação continuam dando informações diferentes. "Organização social eu posso garantir que não será", diz Boulos.A nova forma de administração, no entanto, deve seguir o modelo dos outros 21 hospitais administrados por OSSs no Estado de São Paulo. O modelo estabelece regras - como número mínimo de procedimentos e teto para a remuneração do hospital. "Será um modelo parecido, mas organização social não será", reitera Boulos.Em agosto, decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) indeferiu uma liminar que contestava o modelo de gestão colocado em prática pelo então governador Mário Covas (PSDB). A ação era movida por PT e PDT e questionava a legislação, criada durante o governo Fernando Henrique Cardoso.Quando finalmente estiver funcionando, o Ioesp - com seus 726 leitos - será o maior centro oncológico do mundo em número de vagas. Com a mudança do projeto, por enquanto, os valores que devem ser repassados para a Fundação Faculdade de Medicina e o número de consultas e de procedimentos mensais ainda não foram definidos.