Informação é o maior diferencial

- O Estado de S.Paulo

Experiência com crises anteriores aliada a novos meios de comunicação são as armas para enfrentar epidemia

Enquanto Tuba Kuschnaroff cuidava em 1968 da gripe Hong Kong, o médico Isaías Raw estava exilado nos Estados Unidos. Voltou ao País dois anos depois, "sem nunca ter escutado a comunidade discutir a epidemia". Mas sua experiência atual, aos 82 anos e na presidência do Instituto Butantã, resume as diferenças entre uma epidemia e outra: pela internet - mesmo aparato virtual que ensinou a população a saber, e temer, os alcances de uma gripe - foi divulgado que o Butantã, que já testa a vacina contra a gripe que em 2003 aterrorizou a Ásia, também vai produzir a imunização contra a gripe suína. "E pensar que, até para mim, produzir uma vacina em tempo real já foi sonho." LIÇÕES DA HISTÓRIA "Ninguém confere a história melhor do que os idosos", ensina Vicente Amato Neto, aposentado contra a vontade e ativo por opção na cadeira de professor do Laboratório de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo. E pela história da gripe é possível entender a mobilização atual que foi montada no planeta para tentar evitar que a influenza suína se alastre ainda mais. Em 1918, quando os especialistas Amato Neto, Isaías Raw e Tuba não eram nascidos, a combinação genética H1N1 - descoberta só em 2004 - massacrou boa parte da população mundial. As contas não são exatas, mas calculam-se cerca de 40 milhões de histórias interrompidas pelo vírus. "Os bondes levavam os corpos recolhidos das casas", diz Raw. Era uma época de pós-guerra e o mundo já estava frágil. "Temos de levar em consideração que nem saneamento básico tinha, mas não dá para negar o alcance da epidemia", diz Amato Neto. Já em 1968, a combinação foi H3N2. Só depois de um ano que os primeiros casos foram identificados no Brasil. Pesquisadores do Instituto de Pesquisas Biológicas do Rio Grande do Sul isolaram o vírus, mas não foi registrada uma sequência de casos no País. Em 1977, surgiu uma ameaça de nova pandemia, que não se concretizou. Até que em 2003 a gripe aviária deixou o mundo em alerta. "A versão H5N1 contaminou os frangos, que passaram o vírus ao homem, mas a transmissão entre humanos não se confirmou", diz Tuba Kuschnaroff. Ainda assim, a disseminação do conhecimento e o avanço da medicina permitiram criar planos internacionais de contenção de casos. INFORMAÇÃO A combinação atual do vírus repete a sequência mais letal - H1N1, com algumas diferenças. É um combinado de substâncias que afetam aves, porcos e humanos e que se espalham com facilidade. Com uma agravante: a globalização facilitou as viagens e a circulação do vírus pelos continentes. Mas os experientes em epidemias não apostam que a história vai se repetir. Se a facilidade da informação fez o medo chegar antes do vírus, trouxe também proteção contra ele.