Idosos estão sob risco da hepatite C

Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

Médicos observaram que curva da infecção sobe após os 50 anos

A hepatite C será um problema de saúde cada vez mais presentes entre idosos, o que demanda uma preparação dos serviços de saúde, alertaram especialistas reunidos ontem em São Paulo para evento científico que marca os 20 anos da descoberta do vírus C da doença.A hepatite é uma doença infecciosa que pode gerar danos ao fígado a longo prazo e é transmitida principalmente por via sexual e instrumentos infectados com sangue contaminado, como alicates de manicures. Gera 16,5 mil casos anuais no País. Estudos feitos na capital paulista entre 2002 e 2003 apontam, no entanto, que, entre 50 e os 59 anos, o porcentual dos que têm anticorpos contra o o vírus da doença (o que denota infecção no passado) é de 3,8%, contra 1,4% na população geral. A presença dos anticorpos, no entanto, não significa que todas as pessoas necessitarão de tratamento. Mas , como o desenvolvimento da hepatite C é de longo prazo e a população está vivendo cada vez mais, os problemas causados pela infecção, como cirrose, varizes de esôfago, alterações hematológicas e câncer de fígado, poderão se manifestar na idade avançada.O cientista americano Harvey Alter, responsável pelo sequenciamento proteico do vírus HCV há 20 anos, destacou ontem a que os mais velhos foram os mais expostos aos principais meios de transmissão do vírus no passado, como a transfusão de sangue contaminado."O vírus não é novo, ele está aqui há muito tempo, mas no passado não éramos preocupados com esterilização, a transfusão de sangue não era segura. As pessoas infectadas ficam mais velhas e há maior risco de a doença se manifestar, pois elas desenvolvem deficiências imunológicas. A presença do vírus por 40 ou 50 anos começa a trazer problemas." Segundo enfatizou o especialista, também no Japão e nos Estados Unidos a curva por faixa etária mostra que a presença de anticorpos contra o HCV entre os mais jovens é insignificante, mas começa a subir a partir dos 50 anos e continua até os 80, idade em que muitos pacientes descobrem ter câncer. "Hoje, muitas vezes o idoso só descobre que tem o vírus depois de dar entrada com hemorragia gastrointestinal no pronto-socorro", complementa Evaldo Araújo, responsável pelo comitê de hepatites virais da Sociedade Brasileira de Infectologia, organizadora do evento, patrocinado por dois dos principais fabricantes de drogas contra a doença. "A mensagem principal é a de que as pessoas mais velhas pensam que não estão sob o risco da hepatite C. E nós devemos dizer a elas que estão, a prevalência de anticorpos é maior nessa faixa etária. Essas pessoas foram mais expostas ao vírus", continuou Araújo. "Não queremos gerar pânico, mas alertar ", concluiu Alter.Araújo enfatizou ainda que nem todos os pacientes que se descobrirem portadores do vírus necessitarão ser tratados. O médico brasileiro defendeu, porém, que todos os idosos que puderem sejam testados para a doença em seus check-ups. Ele enfatiza, no entanto, que ainda não há consenso para a testagem geral da população, pois os exames não adiantariam sem uma adequada estrutura para tratamento.Durante o evento, Qui-lim Choo, cientista americano que participou da descoberta do vírus da hepatite C, enfatizou que o desenvolvimento de uma vacina contra a doença ainda está distante. "Mas as vacinas poderão ser usadas como tratamentos junto com as medicações existentes", afirmou.A DOENÇA16,5 mil casosde hepatite C ocorrem no País, por ano3,8% é o índicede pessoas entre 50 e 59 anos que têm anticorpos contra a doença - ou seja, já foram infectadas pelo vírus - na capital1,4% é o índice na capitalde infectados na população geral