Hospitalizado, mas conectado à rede

Emilio Sant?Anna - O Estado de S.Paulo

Pacientes em tratamento buscam internet para manter a rotina e ter informações até mesmo sobre sua doença

Notebook no colo, celular ao alcance das mãos, papéis espalhados sobre o sofá e decisões a serem tomadas. Nada na rotina de trabalho do engenheiro Marco Aurélio Martins, de 37 anos, foi diferente na última semana. Nada, a não ser o cateter ligado a seu peito por onde o medicamento da quimioterapia entra em seu corpo e o ajuda a combater um tumor no abdome. Ele faz parte de um contingente cada vez maior de pacientes que se vale dos serviços wireless oferecidos por hospitais de ponta para manter o doente mais próximo de seu mundo habitual e mais distante da pressão de estar internado.Martins se trata no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. No entanto, teria a mesma comodidade caso estivesse em hospitais como o Albert Einstein, Samaritano, Nove de Julho ou Hospital do Coração (HCor), por exemplo.É a segunda vez que o engenheiro enfrenta o câncer e as sessões intermináveis de quimioterapia. Mas agora ele tem um aliado: sua rotina e obrigações continuam as mesmas. "Enquanto estou aqui ocupo minha mente com o trabalho e continuo tocando minha vida", diz.Desde que recebeu o diagnóstico, ele já sabia como contornar a situação. Reuniu os diretores de sua empresa, em São José do Rio Preto, a 450 km de São Paulo, e comunicou que se afastaria da cidade, mas não do trabalho. Elegeu uma das salas do ambulatório de oncologia do Sírio-Libanês como seu escritório. "Ficar longe de casa para mim, que tenho um filho de 3 anos, já é ruim", diz. "Pior seria não ter nada para fazer aqui."O oncologista Fernando Maluf é o responsável pelo acompanhamento clínico de Martins e apoia a decisão dos pacientes de não abandonarem suas rotinas durante o tratamento. O acesso à internet não é liberado para todos os pacientes. Casos mais graves são vetados, mas a rede é liberada quando a situação clínica permite e o médico não vê problemas.Manter-se ativo e informado traz efeitos positivos para a recuperação do doente. "O maior ganho é que as pessoas têm a clara noção de que a luta é contra o câncer e nem por isso precisam se desviar do que costumam fazer", diz Maluf.LEIGOS Nem mesmo um tipo de paciente cada vez mais comum nos consultórios preocupa o médico: o "paciente Google". Com a expansão do acesso à internet, doença nenhuma, assim como os tratamentos, ficaram à salvo da curiosidade leiga. Para o oncologista, informação demais nunca é um problema. "É relativamente frequente o paciente questionar ou até mesmo se espantar com o prognóstico de sua doença, que ele leu em algum site", diz. "Porém ele deve ser transparente e perguntar ao médico qual a melhor fonte de pesquisa."O clínico-geral do Samaritano, José Renato das Neves, tem a mesma opinião. Não ter informações sobre a própria doença e as possibilidades de cura é uma angústia a mais, desnecessária, diz. Mesmo quando o prognóstico não é o esperado, saber ao certo quais são as perspectivas de cura pode ter seu lado positivo. "Quanto mais informado o paciente estiver, melhor. Mesmo que o prognóstico não seja bom", afirma. "É melhor a pessoa tirar a dúvida com um profissional do que ficar sofrendo sem saber a resposta."Para o infectologista e vice-diretor médico do Hospital do Coração (HCor), Pedro Mathiasi, os médicos bem preparados não devem temer a situação de confronto que muitas vezes se cria quando o paciente passa a questionar os rumos de seu tratamento. "Quem tem o domínio da situação tem de estar preparado para enfrentar casos como esses", diz Mathiasi.