Hospital público no Rio registra 3 novos casos de contaminação

Emilio Sant?Anna, RIO - O Estado de S.Paulo

Bactéria ?Enterococcus faeceium?, resistente a antibiótico, causou a morte de 16 pessoas; médicos pedem interdição

O caos na saúde pública do Rio ganhou ontem um novo capítulo. Três novos casos de contaminação pela bactéria Enterococcus faeceium resistente ao antibiótico vancomicina (VRE, na sigla em inglês) foram confirmados no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital Municipal Souza Aguiar. Há dois meses, 49 pacientes foram contaminados pela mesma bactéria - que causa infecção generalizada - no Hospital Geral de Bonsucesso, zona norte da cidade, o que teria causado a morte de pelo menos 16 pessoas.A contaminação, que pode ter se espalhado, gerou ontem muita especulação e a expectativa de que o CTI, com 10 leitos, fosse fechado. A informação, no entanto, foi negada pelo diretor do hospital Josué Kardec. "Não há nenhuma sinalização de que o CTI precise ser fechado", diz. O médico afirma que nenhum dos pacientes desenvolveu até agora a doença. "No momento, estão apenas colonizados pela bactéria", diz.O diretor jurídico do sindicato dos médicos, Júlio Noronha, discorda. "Essa decisão coloca em risco os outros pacientes", afirma. "A pessoa pode sair de lá com uma doença diferente da que entrou." Noronha explica que os casos deveriam ser considerados e tratados como um surto.O caso se tornou público dois meses após a direção do hospital receber a primeira notificação de contaminação (leia ao lado). A situação chegou ao ponto de o sindicato pedir aos ministérios públicos Federal e Estadual uma investigação dos casos de infecção. De acordo com Noronha, informações preliminares do relatório apontam casos de contaminação em praticamente todos os hospitais da cidade. "Praticamente todos os hospitais públicos e privados da cidade têm algum tipo de bactéria multirresitente", diz.A má situação dos hospitais da cidade é fator fundamental para a disseminação desse tipo de contaminação. "O caos na saúde do Rio de Janeiro é o caldo de cultura ideal", afirma Noronha. Médicos das redes estadual e municipal dizem que temem denunciar a situação por causa do risco de represálias dos gestores públicos.RENAISPacientes renais crônicos são os mais expostos a esse tipo de contaminação. Caso a condição sanitária do hospital não seja adequada, as sessões de diálise podem se transformar em situação ideal de contágio por bactérias multirresistentes. De acordo com o diretor do sindicato, o órgão tem denúncias de pacientes renais crônicos internados em hospitais da cidade que ficam por até 60 dias com o mesmo cateter, quando esse período não deveria passar de 10 dias.O contágio pelo VRE se dá por meio de contato físico, o que justificaria o isolamento dos pacientes. De acordo com o diretor do hospital, medidas extras de segurança foram tomadas para que o surto não se alastre. Kardec afirma que um procedimento para rastrear novos casos de contaminação foi iniciado no hospital. A preocupação do sindicato dos médicos se justifica pela série de cuidados que devem ser tomados com os pacientes contaminados com VRE. Além de terem de ficar isolados de pacientes sem a bactéria, existe o risco de infecção cruzada pelo contato do enfermeiro com outros pacientes. "Temos que evitar que esses casos se tornem extra-hospitalares", afirma Noronha.Procurado pelo Estado, o prefeito César Maia demonstrou não ter conhecimento da situação: "Não há bactéria, há obras de manutenção em rodízio (no hospital)."