Hora da superprodução

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Criar looks ousados é tão divertido quanto sair para dançar. É o que mostram algumas baladeiras

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotos: Felipe Rau/AE

Alternativo. Vanessa Castro e Laira Ribeiro capricham na maquiagem antes de ir para a balada

 

 

 

 

 

 

Na festiva noite paulistana, o velho e confortável "pretinho básico" abre alas para produções superelaboradas e pra lá de sensuais. Cuidar do look com esmero também faz parte da diversão, para um grupo crescente de baladeiras convictas.

 

"A mulherada está se montando mais", atesta Vanessa Castro, de 31 anos, que, desde adolescente, bate ponto nos endereços descolados da cidade. Ela sabe bem sobre o que fala. Seu currículo de anos de baladas inclui passagens pelos saudosos Espaço Retrô, Columbia, Hell’s Club, Overnigth, que embalaram a moçada entre a década de 80 e começo dos anos 90. Das atuais, Vanessa conhece todas.

 

Essa paixão pela nigth a empurrou naturalmente para uma profissão do mainstream: virou DJ e hoje comanda as pick ups do Void Club, em Guarulhos, aos sábados. Mas bem antes de começar a ganhar a vida fazendo o povo se chacoalhar na pista, ao som dos hits dos anos 80 e 90 (para ela, a melhor fase), a paulistana curtia criar visuais loucos.

 

"Adoro cores, perucas e mistura de peças", conta. "Embora me vista sempre de forma alternativa, é à noite, na balada, que posso brincar mais e assumir o meu lado Elke Maravilha."

 

Visual over. Após o fim da moda grunge, caracterizada pelo jeans "destruído", camisa xadrez e camiseta de banda de rock, todo o excesso dos anos 80 voltou à cena: glitter, cores fortes, glamour e muita sensualidade. Microssaias, vestidos de brilho, saltos nas alturas e maquiagem bem marcada tornaram-se constantes entre garotas de todos os estilos e classes sociais.

 

Suzanne Jacette, de 21 anos, estudante de Direito e estagiária em um escritório de advocacia, não se intimida com comentários alheios quando aposta nos modelos sensuais. "Tudo depende da postura", avisa.

Suzanne é a baladeira-mor de um grupo de meninas que vive em uma república "chique": uma cobertura no bairro de Higienópolis. Elas são em seis e atormentam o vizinho de baixo com os toc-tocs dos saltos – indício de que estão se preparando para cair na noite. Juntas, ligam o som e começam a montar seus looks com uma peça de uma, um acessório de outra.

 

"Esse é o momento mais divertido e levamos, às vezes, horas para nos produzir e maquiar", conta a amiga Laira Ribeiro, de 20 anos. "E isso acontece praticamente todas as noites durante a semana, que é quando gostamos de sair, porque o público é mais selecionado."

 

Suzanne e Laira, as mais festeiras, não repetem modelos nas baladas onde transitam – das elitizadas Pink Elephant, Cafe de La Musique, Royal e Museum, às descoladas Mokaï e Heaven. Um modelito só vai entrar novamente em cena depois de três meses, mesmo assim, em um look diferente. Populares e figurinhas carimbadas nessas casas, elas mantêm um guarda-roupa atualizado.

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sensual. A estudante de direito Suzanne Jacette e a vocalista Vivian Cotini apostam na superprodução

 

 

 

 

 

 

 

Convidadas. Lindas e fashion, têm passagem livre em alguns lugares, pois recebem cortesias dos promoters, que já as conhecem. Algumas casas, como o Cafe de La Musique, mandam um carro buscá-las e levá-las de volta. "Dizem que querem pessoas bonitas e de alto astral", conta Laira. Tamanha mordomia é resultado da brincadeira que ficou quase séria – caprichar nas produções.

 

"Gostamos de nos diferenciar", avisa Suzanne. "É à noite que podemos ficar exuberantes e bem femininas. Quem me vê durante o dia, toda social, não imagina que sou outra na balada." Dessa forma, abominam calças jeans por "não valorizarem a mulher". Para elas, barriga de fora só é permitido na praia ou em casa. Maquiagem leve, nem morta... Muito menos sapatos sem salto.

 

Quando dava expediente em um grande escritório de advocacia da capital, a advogada Vivian Cotini, de 31 anos, mal tinha tempo para aproveitar as baladas paulistanas. Mesmo assim, reservava uma noite da semana para dançar com amigos. Ela só conseguiu curtir pra valer a rica profusão de danceterias quando largou a profissão para investir em um novo projeto profissional: lançar um CD como compositora e vocalista de uma banda de pop-rock, chamada Myopia – trabalho que está em fase de finalização.

 

"Agora saio direto, porque adoro dançar e preciso estar antenada com as tendências musicais", diz Vivian. A delicada loirinha é antenada em moda também. Repetir modelitos não é com ela. Em seus looks, prefere valorizar seu estilo fashion, superfeminino e romântico. Aquelas produções "apelativas, que mostram em excesso o corpo, não são sua praia. Para se montar, Vivian foge de compras em shopping – onde, na sua opinião, as roupas são todas iguais. Privilegia as lojas de rua, principalmente as da Rua Augusta, reduto dos moderninhos.

 

Preocupada em não reforçar o estereótipo da loira-fútil-baladeira-fashionista, Vivian manda um recado: "Não é porque curto tudo isso que sou vazia. Tenho uma trajetória profissional como advogada, leio bastante, escrevo e componho letras de música, e curto também moda, pois gosto de me valorizar. É um banho na autoestima."

 

 

 

Roteiro da moda-balada

A profusão de endereços de baladas na Rua Augusta trouxe também lojas de roupas voltadas para o público que curte a noite. Algumas costumam ficar abertas até tarde. É o caso da Lord X.

 

"Quinta, sexta e sábado, que são as noites mais lotadas, cheguei a fechar as portas às 3 da manhã", conta o dono Tadeu Bernardes, que inaugurou seu ponto há nove meses e não tem do que reclamar. De olho nessa fatia de consumidores, a tradicionalíssima Au Bottier, que existe desde a década de 60, mudou de cara. As irmãs Alegra e Mireille Fichmann – filhas do sapateiro fundador da loja, o falecido Maurice Yedid – ampliaram o negócio com a oferta de novos produtos.

 

Além dos sapatos exóticos, as irmãs passaram a vender modelos básicos e roupas para a noite.

Outro ponto é a loja Amores, que fica no fundo da Galeria Ouro Velho. As peças mais famosas da estilista Marcita são as leggings coloridas e com estampas de bicho, por R$ 70.

 

Há também boas opções no lado dos Jardins. Uma parada obrigatória é a loja Universo Pop. A proprietária Lily Steiner aposta na exclusividade. "Quem compra aqui não quer sair na noite e encontrar outra igual."

 

 

 

Bússula fashion

A consultora de estilo Irina Cypel, autora do site www.cadaumcomseuestilo.com.br, ensina a dosar as produções, para evitar os deslizes "fatais".

 

O bacana da produção para balada é poder se vestir de uma maneira que, de dia, jamais seria indicado?

Apesar de hoje não haver rigidez, essa divisão continua existindo. Há produções mais ou menos adequadas para diferentes ocasiões. A noite e a balada são maravilhosas para permitir que cada um de nós se expresse com mais liberdade. O dia, por sua vez, pede mais discrição.

 

Até que ponto tudo é permitido em um look balada?

Há pessoas que são obrigadas a se vestir no dia a dia de uma maneira muito rígida e tendem a escancarar na noite, o que é um enorme equívoco. A noite, especialmente a balada, permite uma atitude mais ousada, mas é preciso respeitar a sua personalidade, tipo físico e idade.

 

O que fazer para um look sensual não ficar vulgar?

Se houver um desejo de expressar esse lado mais sexy, a balada é o momento. Para não ficar vulgar, no entanto, opte sempre por mostrar apenas uma das partes do seu corpo. Ou seja, se mostrar pernas, cubra bem os seios; se os braços estiverem de fora, use o comprimento da saia um pouco mais longo.

 

Como montar um look para a noite?

Não deixe para escolher o que vestir na última hora. Tenha um ou dois looks curingas para os dias que estiver com menos tempo ou sem criatividade. O importante é vestir-se com a liberdade que a sua personalidade e estilo permitirem.