Homens no divã

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Cada vez mais, problemas sexuais masculinos vão parar no consultório, é o que atesta a especialista

Desde que retornou ao Brasil, em 2002, após 12 anos em Londres, entre especialização e atendimento no Victoria Clinic Westminster Hospital, a psicóloga clínica e sexóloga Ana Cláudia Simão tem acompanhado mudanças entre homens e mulheres. Algumas sutis, outras nem tanto. O que mais chama atenção, contudo, é que, apesar de uma suposta liberdade sexual hoje, a insatisfação na cama continua assombrando muitos.

"Embora as pessoas mostrem-se liberadas, ainda há muito bloqueio para o prazer", ressalta a especialista, de 47 anos. "Mais ativas sexualmente, as mulheres ainda sentem dificuldades para ter orgasmo e, em vez de ejaculação precoce, os homens agora reclamam da queda na libido."

Por outro lado, ocorreram transformações positivas. Atualmente, mais e mais homens procuram ajuda e conversam mais sobre suas dificuldades sexuais. Tempos atrás, isso seria impensável. A demanda aumentou também por duas razões: a crise econômica e a autonomia feminina.

"Sempre atendi mais homens do que mulheres, mas esse crescimento deve-se à dificuldade masculina para se comportar no mundo moderno, pois carregam tradições e conservadorismo", observa Ana Cláudia. "Isso deu um choque."

Entre uma consulta e outra, a sexóloga falou das principais barreiras da atualidade.

Os homens estão buscando mais ajuda?

Há sete anos, quando voltei a atender no Brasil, a procura entre os homens já existia, mas vem crescendo muito desde então. Tenho acompanhado outra mudança positiva no meu consultório. Eles começaram a conversar com os amigos sobre seus problemas sexuais. Tanto é que vários acabam vindo aqui por indicação de um amigo. Antes isso era impensável. É um tipo de atitude que tem acontecido entre os mais sensíveis, maduros, com mais de 40 anos, e casados. Outros vêm ao consultório a pedido das esposas. Dizem que se não "funcionarem", a mulher vai largá-los ou arrumar outro - o principal temor.

Qual é o principal problema masculino hoje?

Anos atrás, a principal queixa era ejaculação precoce. Hoje, é a falta de libido, por vários motivos. Um deles está associado ao fato de o mercado de trabalho estar mais competitivo. Um homem de mais de 40 anos tem de disputar com um jovem que fala várias línguas, é expert em computação e por aí vai. Junta-se a isso a insegurança masculina com relação à mulher atual, que está mais autônoma e independente financeiramente. São raras aquelas submissas como as de antigamente, que dependiam do marido. Além disso, elas estão mais assertivas, ou seja, falam e mostram o que querem na cama, e isso causa mais insegurança nos homens.

A assertividade feminina na cama não é uma boa mudança?

Sem dúvida alguma. Isso fez com que o homem se tornasse mais preocupado com o prazer feminino. O que foi muito bom, pois o prazer masculino sempre esteve muito voltado para ele mesmo. Agora ele percebeu que a mulher também tem direito ao prazer.

Eles estão realmente mais preocupados em dar prazer às mulheres?

Sim, mas, por outro lado, a preocupação masculina em dar prazer à mulher vai respigar na vaidade do homem, que está associada à sua performance sexual. Afinal, ao conseguir dar prazer à mulher, ele se sente "o cara". No passado, porém, ter ereção e procriar eram suficientes para se acharem "o cara". Só que hoje não basta mais ele se ver assim. Agora a mulher também precisa enxergá-lo dessa maneira. Mas há ainda muito homem egoísta, que não está nem aí para o prazer feminino.

Como a crise econômica tem afetado a libido masculina?

Agravou o problema da falta de libido masculina, por causa da grana. Homem sem dinheiro e posição sente que não é nada na nossa cultura, pois esses são os símbolos de masculinidade e potência sexual. Além disso, tem a insegurança e a pressão no trabalho para afetarem ainda mais o desejo sexual. Razão pela qual a procura por terapia aumentou com a eclosão da crise.

Qual tem sido a principal queixa masculina com relação às mulheres?

Além da "agressividade" feminina, eles dizem que se sentem "usados" pelas mulheres, mas não no sentido sexual. Na opinião deles, o interesse feminino está no dinheiro, posição e prestígio dos homens.

Mas isso não é incoerente, uma vez que muitos lançam mão de bens materiais e posição profissional para conquistar?

Sim, porque eles realmente tentam se apoiar no poder, posição profissional e bens materiais na hora da conquista, mas não percebem que acabam caindo na própria rede. Sabe-se, contudo, que aqueles que sentem mais necessidade desses artifícios tendem a ter dificuldades nas áreas sexual e da conquista. Por outro lado, existem as mulheres "machistas". Elas acreditam que o homem tem a obrigação e a função de satisfazê-las em várias áreas, como a social e econômica, apesar de serem independentes financeiramente.

As mulheres estão mais exigentes na cama?

Para a mulher de hoje não adianta só "comparecer", tem de saber fazer a coisa certa. Mas também existe aquela que joga toda a responsabilidade pelo seu prazer no homem. Cobra um prazer que, na verdade, ela própria tem de buscar, se permitindo conhecer melhor o seu corpo para poder mostrar o que quer. Não existe super-homem, nem o parceiro deve adivinhar os desejos dela, pois cada ser humano é diferente do outro. Há centenas de lugares de excitação no corpo, mas tem muita gente que ainda acredita que sexo se resume apenas ao pênis e ao clitóris.

Isso significa que ainda há muita dificuldade de diálogo?

Sim, porque ainda existe vergonha de falar um para o outro sobre os pontos eróticos do corpo. Por trás do comportamento mais solto de hoje, há muita dificuldade para se expressar na intimidade. As pessoas saem para transar, até têm quantidade de parceiros, mas não qualidade na relação. Quando sexo vira tema de conversa, geralmente na mesa de bar, acaba sendo motivo de piada ou sacanagem. A tendência é não se levar esse tema a sério, especialmente os homens. As mulheres conseguem se abrir mais com amigas íntimas.

Por que tanta barreira ao prazer?

É o resultado da influência religiosa, que sempre condenou o prazer e relacionou sexo apenas à procriação, introjetando há séculos valores tradicionais de pecado e culpa.

Se as mulheres estão mais assertivas, isso significa que elas têm mais prazer?

Não exatamente, pois a principal queixa feminina é a falta de orgasmo, chamada anorgasmia. Está relacionada à falta de conhecimento do próprio corpo, por não terem tido o costume de se tocar, se masturbar, por causa da educação sexual baseada na repressão. A mulher aprendeu a se conter sexualmente para se valorizar. Ela partiu para uma vida sexual ativa, mas ainda com muita insatisfação. Há que se levar em consideração que o orgasmo feminino não é tão fácil de se atingir. Para o homem, que sempre se masturbou desde pequeno, é mais fácil. O homem pega no pênis dele o tempo inteiro, tem uma liberdade muito maior. As mulheres foram ensinadas a cruzar as pernas.

Elas reclamam também de falta de libido, assim como os homens?

Essa, aliás, é a segunda queixa feminina e pode estar relacionada a vários fatores: alteração hormonal, menopausa, estresse, depressão e dificuldade de relacionamento. Ou seja, ela não consegue mais se satisfazer sexualmente, e segue assim até perder o interesse por completo. Isso tem a ver também com o tédio na relação. As pessoas se acomodam muito na relação de muitos anos e desaprendem a namorar. Para complicar, os homens não são muito abertos para o resgate do namoro, por se acomodarem bem mais do que as mulheres. Só que, numa situação muito ruim, a mulher cria força e vai embora. Muitos não entendem essa reivindicação feminina, e só acordam na perda, quando acaba o casamento.

Existe diferença também na maneira como homens e mulheres encaram a

separação?

Quando a mulher se separa vai viver sozinha com os filhos. No entanto, boa parte dos homens que eu atendo no consultório, quando toma a iniciativa de terminar o relacionamento, é porque já tem alguém. Por ser mais madura, a mulher não precisa ter outro para acabar com o relacionamento. O homem não sabe viver sozinho, pois precisa de alguém para cuidar dele. Isso está relacionado à cultura latina, pois ele sai da casa da mãe superprotetora para se casar. As mulheres são bem mais seletivas, por isso têm mais dificuldade de encontrar um companheiro. Já eles, para não ficarem sozinhos, pegam a primeira que aparece.

O que dificulta o resgate do namoro em uma relação?

Além da acomodação, existe a questão das mágoas, o rancor do que um fez para o outro ou deixou de fazer ao longo dos anos de convivência. Por isso que, muitas vezes, o casal não consegue mais ser romântico de novo e acaba levando o relacionamento no automático. Um aguenta o outro por causa dos filhos. E para resgatar namoro é necessário estar amando.