Herança (ambiental) da máfia siciliana

Marcos Sá Corrêa* - O Estado de S.Paulo

Com séculos de vantagem sobre o Brasil, quando se trata de administrar a desordem, sicilianos descobrem nova maneira de tirar proveito ambiental de sua máfia. As propriedades dos chefões, quando eles caem nas mãos do governo, viram parques públicos. Há pelo menos 450 hectares disponíveis para isso. E um desses butins imobiliários até pegou como versão italiana do que, no Brasil, provavelmente se chamaria reserva extrativista. Fica nas terras que pertenceram a Salvatore Riina. Ele era proprietário rural em San Giuseppe Jato, lugarejo de 10 mil habitantes a 30 quilômetros de Palermo, até ser preso em 1993. Suas fazendas estão nas mãos da cooperativa Terra Libera, de Don Ciotti, jornalista de Turim que se converteu em padre. "Se for a Palermo", prega um anúncio da fundação criada por Don Ciotti, "dê uma escapadinha a um endereço que abriu há pouco suas portas". Lá se vende massa caseira, vinho, mel, azeite, legumes e conservas. Todos os produtos são biodinâmicos e os locais, agroturísticos, graças à herança da máfia.Nessas horas, ter uma grande tradição mafiosa não deixa de ser uma vantagem. Desde o fim do ano passado, funciona em uma das casas de Riina um restaurante natural com 90 lugares e 4 apartamentos - podendo hospedar até 16 pessoas, se depois do jantar o caminho de volta à cidade se tornar mais longo.Perto dos Riina também se pode visitar o que resta da família Brusca, cujo patriarca, Giovanni, tinha uma reputação firmada por nada menos de cem homicídios, entre os quais o do juiz Giovanni Falcone, tirado de seu caminho no meio de uma investigação em 1992. Atualmente, o "terror de San Giovanni Jato" repousa na prisão perpétua. Em seu lugar ficou seu irmão Enzo, que circula pacificamente pela cidade. E uma bela fazenda no alto de uma colina, rebatizada como Portinha da Giesta. Menos assustadora, impossível. Ela dá acesso a um centro hípico, que é outra gentileza da máfia siciliana. E também oferece aos seus hóspedes a garantia de se sentirem em casa.É dirigida por um engenheiro agrônomo chamado Salvatore Gibiino, que afirma não ter pensado duas vezes na hora de assumir o legado de Brusca. Don Ciotti, o ideólogo da Terra Libera, considera um desperdício quase pecaminoso não usar os recursos tomados dos mafiosos pelo governo. Só no ano passado, foram, na Itália, 4 bilhões. Não que a mudança de gestão tenha saído de graça. A cooperativa perdeu 60 oliveiras em um incêndio suspeito. E sofreu pequenos atentados. Mas finalmente conseguiu emplacar no mercado 450 mil garrafas por ano de seu vinho Cento Passi - com o nome extraído de um filme de Marco Tullio Giordana de 2000 sobre o assassinato do radialista Pepino Impastato. Quem chegou até aqui deve estar se perguntando o que o Brasil tem a ver com essa história. E daí que dinheiro mal ganho para confiscar é o tipo da coisa que aqui não falta. O que lhe falta é programa para usá-lo direito, de preferência rendendo algum dividendo de sobra para a conservação da natureza. Brotaria reserva de graça no país inteiro.* É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)