Grupo sequencia 63% do genoma do neandertal

NYT, Chicago - O Estado de S.Paulo

Pesquisadores querem comparar resultados com homem e chimpanzé para entender quais sequências de DNA pertencem só ao Homo sapiens

Cientistas reconstruíram cerca de 63% do genoma do homem de Neanderthal com fragmentos de DNA obtidos em fósseis. Como o Homo neanderthalis é o parente mais próximo, do ponto de vista evolutivo, do homem moderno, comparações com seu genoma e com informações genéticas de chimpanzés permitirão identificar sequências de DNA que pertencem apenas à nossa espécie e que, portanto, podem ser responsáveis por habilidades singulares como o pensamento complexo, a linguagem e a arte."Estudos como esse podem nos revelar o que torna humanos os homens modernos, por que estamos sozinhos e por que temos habilidades tão fantásticas", afirma o coautor do trabalho Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig (Alemanha).Mas a reconstrução do genoma não vai possibilitar a ressurreição do homem de Neanderthal, pois o mapeamento dificilmente será completo. "Tão longe quanto posso avistar, não há nenhum aprimoramento da tecnologia que tornará (a clonagem dos neandertais) possível", afirma o sueco Svante Pääbo, líder da pesquisa.Artigos científicos constituem os veículos tradicionais para divulgar descobertas como esta. Mas os pesquisadores preferiram realizar o anúncio público dos resultados ontem, antes da publicação do artigo, para celebrar o 200º aniversário de Charles Darwin. No domingo, Pääbo apresentará seus resultados durante o encontro anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), em Chicago, nos Estados Unidos.Outros seres vivos extintos já foram sequenciados, mas em todos havia tecidos moles preservados, como no caso dos mamutes congelados. Contudo, o DNA dos neandertais foi obtido de ossos coletados em Vindija (Croácia), El Sidrón (Espanha), Mezmaiskaya (Rússia) e Feldhofer (Alemanha).As pesquisas começaram há dez anos e, desde então, seis ossadas fósseis e 3,7 bilhões de bases de DNA foram analisadas. A equipe pretende acumular dados de 20 neandertais para completar, da melhor forma possível, o genoma.Os cientistas associaram-se à empresa 454 Life Sciences para desenvolver uma técnica de sequenciamento acurada para reunir fragmentos muito dispersos de DNA e com contaminação de material genético do homem moderno.Análises preliminares já permitem algumas comparações. Aparentemente, está ausente o gene para produção de lactase, enzima que possibilita a ingestão de leite por adultos. Por outro lado, os neandertais compartilham com os homens modernos uma variante do gene FOXP2, relacionada à linguagem, o que sugere a possibilidade de que também pudessem falar. Os pesquisadores, no entanto, adotam uma postura cautelosa e recordam que há outros genes responsáveis pelas habilidades linguísticas. Provavelmente, não houve cruzamento com o homem atual. "Nossos dados mostram que a contribuição dos neandertais para o patrimônio genético dos humanos modernos é muito pequena ou inexistente", afirma Pääbo.As linhas evolutivas de humanos e neandertais separaram-se há 830 mil anos. A extinção ocorreu há 30 mil anos, quando o homem moderno chegou à Europa. A competição entre as duas espécies pode ter levado ao desaparecimento dos neandertais.