Gripe suína pode resistir a remédio

Jamil Chade, GENEBRA - O Estado de S.Paulo

OMS teme que medicamento fortaleça o vírus no Hemisfério Sul e recomenda uso do antiviral só para caso grave

A Organização Mundial da Saúde (OMS) teme que o A(H1N1) ganhe no Hemisfério Sul resistência ao Tamiflu, antiviral que o governo brasileiro adquiriu. A entidade afirmou que ele deve ser poupado para casos graves. A ONU teme que a proliferação do vírus nas áreas mais pobres tenha efeito "devastador" e que uma pandemia explicitaria a existência de "dois mundos" em termos de saúde. Leia as orientações do Ministério da Saúde Veja mapa da evolução da doença no mundo Acompanhe as notícias que tratam dos casosA OMS aponta que a taxa média de mortalidade é de 0,4% - 4 mortes em mil. Mas essa variação pode chegar a 15 por mil. O poder de transmissão é maior que o da gripe comum e pelo menos 10% dos pacientes precisam de hospitalização. Ontem, a OMS confirmava 5.251 casos da gripe em 30 países, com 61 mortes. Mas ainda não eram contabilizados Cuba, Finlândia e Tailândia, que depois anunciaram seus primeiros casos. Os mais afetados, com números mais atuais que os da OMS, são México (2.282 casos e 58 mortes) e Estados Unidos (3.009 casos em 45 Estados, 3 mortes). Mas esses números seriam a ponta do iceberg. "No México, só casos graves estão sendo testados", disse Nikki Shindo, do Programa Global contra a Gripe da OMS. "Há muitos casos suaves, o número que divulgamos não reflete a infecção real."A OMS explicou que o vírus da gripe sazonal no Hemisfério Sul foi mais virulento que no Norte, em 2008. O risco é de que, ao chegar ao Sul, o A(H1N1) se misture com essa gripe e resista aos antivirais. Nikki crê que a maior parte dos pacientes pode se recuperar com descanso, oxigenação e hidratação. A Europa tem usado de forma agressiva os antivirais, o que pode explicar casos mais suaves. México e EUA optam por dá-los a casos graves e grávidas. No caso de países em desenvolvimento, a OMS não definiu se todos os pacientes devem receber o antiviral. "Isso vai depender se o país tem remédio para todos. Um tratamento no início pode reduzir a virulência da gripe. Mas o governo terá de escolher qual parcela da população vai querer salvar primeiro", alertou Nikki. Ela sugeriu que governos planejem vários cenários, inclusive uma volta do vírus em novo surto.Keiji Fukuda, vice-diretor da OMS, disse que a pandemia não foi declarada porque ainda não há uma proliferação sustentável de casos fora da América do Norte e porque isso teria um grande "impacto psicológico". ?DOIS MUNDOS?A ONU teme o impacto nos países pobres, diz seu chefe de operações humanitárias, John Holmes. "A América Latina nos preocupa, principalmente as áreas mais vulneráveis." A gripe, que começou no México, já chegou a Brasil, Argentina, El Salvador, Guatemala, Cuba, Colômbia e Panamá.Segundo Holmes, países como o Brasil podem ser chamados a ajudar na tentativa de frear uma proliferação na região, durante o inverno. Outra preocupação é a África. "Não sabemos sequer se há casos na África. Certamente o vírus já chegou lá."