Greve federal pára exames de câncer

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

Só 2 institutos fazem material radioativo para hospitais

Os equipamentos de análise de câncer mais modernos do Brasil não funcionam desde anteontem porque os funcionários das duas únicas instituições que fabricam produtos radioativos para hospitais no País estão em greve. Só em São Paulo cerca de cem exames deixaram de ser feitos nos últimos dois dias. Não há previsão de volta à normalidade. As instituições são o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, e o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), no Rio. Ambas são ligadas ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Os funcionários estão em greve desde outubro por melhores salários. O Ipen e o IEN são, no Brasil, os únicos produtores do flúor radioativo ligado à glicose. Essa combinação é injetada no paciente. Um moderno aparelho, o PET (tomografia por emissão de pósitron), consegue "filmar" o caminho do flúor pelo corpo. O PET identifica doenças oncológicas, cardíacas e neurológicas. No caso do câncer, como as células doentes se alimentam de glicose, o aparelho "filma" o metabolismo do tumor. Isso permite saber, após uma rádio ou uma quimioterapia, quais partes do câncer foram neutralizadas ou não. O PET é capaz de mostrar com precisão se o paciente se curou. A ressonância magnética e a tomografia não têm esse poder. Um aparelho de PET custa R$ 4 milhões. Cada dose do flúor, perto de R$ 1 mil. O exame não é oferecido pelo sistema público de saúde. Em São Paulo, é encontrado só em instituições de ponta, como o Instituto do Coração (Incor), a Beneficência Portuguesa e os hospitais Sírio-Libanês, Albert Einstein, A.C. Camargo e do Coração. Sem o flúor do Ipen, o Sírio-Libanês foi obrigado a desmarcar os 122 exames agendados para os próximos dias. Parte dos pacientes mora fora de São Paulo e viajaria só pelo exame. "Ficaram chateados. É difícil explicar ao paciente que a culpa não é nossa", afirma o médico Antônio Antonietto, um dos superintendentes do Sírio-Libanês. No dia em que o flúor radioativo deixou de ser fabricado, a Sociedade Brasileira de Biologia e Medicina Nuclear (SBBMN) enviou uma carta ao ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, cobrando um acordo com os grevistas. "Não somos contra a reivindicação dos funcionários. Somos contra a greve. Estamos deixando de fazer exames fundamentais para determinar se um paciente precisa ou não fazer uma cirurgia", diz José Soares Jr., presidente da SBBMN. É o caso do vendedor de bilhetes de loteria Narcísio Ferreira, de 59 anos, que tem um tumor no esôfago e teve seu exame no Incor desmarcado anteontem. Ele está sendo atendido sem custos porque há um protocolo de pesquisa nesse hospital. "Nós, da família, estamos apavorados. Se não tivermos o exame até o dia 10, ele perde a consulta com o médico", diz o primo José Adão Viana. Como a paralisação iniciada em outubro não foi suficiente para que as negociações com o ministério avançassem, os funcionários decidiram anteontem suspender a produção do flúor. "Também ficamos preocupados com os pacientes, mas essa era a última arma que tínhamos para negociar", diz Olair dos Santos, do movimento grevista. O Ministério da Ciência e Tecnologia informou que, para atender às reivindicações, depende do Ministério do Planejamento. E que haverá "corte do ponto" caso um contingente mínimo não volte ao trabalho em 24 horas. O flúor radioativo não pode ser importado nem estocado porque tem meia-vida de duas horas - a atividade do flúor cai à metade a cada duas horas. A produção é feita sob encomenda. O Ipen e o IEN produzem a substância e a entregam ao hospital momentos antes do exame. O flúor produzido no Rio às vezes é levado de avião para Salvador. Desde 2006, a produção de substâncias nucleares deixou de ser monopólio federal. Várias empresas já começaram a importar os equipamentos necessários para produzir o flúor, mas ainda não há nenhum em funcionamento.