Governo não vai financiar avaliação seriada da USP

Renata Cafardo - O Estado de S.Paulo

Exame causou polêmica em 2008, quando foi feito pela 1.ª vez; de 50 mil inscritos, só 8 mil apareceram

Parte do programa de inclusão da Universidade de São Paulo (USP) está ameaçada de acabar neste ano. O governo não deve fechar convênio com a instituição para que seja novamente realizada uma prova para alunos do ensino médio da rede pública, que dá pontos a mais no vestibular da Fuvest. O exame já causou polêmica no ano passado, quando foi feito pela primeira vez - dos 50 mil inscritos, apenas 8 mil apareceram para fazer a prova. "A USP tem todo o direito de fazer, mas a secretaria não vai mais financiar", disse ao Estado a secretária estadual da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro. O Estado pagou R$ 35 por aluno inscrito no exame (total de R$ 1,75 milhão), que foi elaborado e aplicado pela universidade. A prova foi feita em novembro passado.A lista de aprovados da Fuvest foi divulgada no dia 4 e ainda não há dados sobre quantos alunos teriam sido beneficiados pelo teste, chamado de Programa de Avaliação Seriada da USP (Pasusp). "Não há resultados claros sobre a eficiência do projeto", completou a secretária. A USP não comentou as declarações. Em 2009, a Fuvest teve o menor número de inscritos vindos da rede pública dos últimos dez anos (31,3%), como mostrou reportagem do Estado. A quantidade de estudantes com esse perfil que passou para a segunda fase do exame aumentou, mas ainda não há dados sobre quantos efetivamente passaram no vestibular (mais informações nesta página). A avaliação seriada já estava prevista no programa de inclusão da USP (Inclusp) desde o seu lançamento em 2006. O objetivo do Inclusp é aumentar o número de estudantes de escolas públicas na universidade, por meio de pontos a mais para esse grupo no vestibular. A expectativa do Pasusp era de uma participação de boa parte dos 380 mil jovens que cursavam o 3º ano do ensino médio na rede estadual em 2008. O cronograma previa que, a cada ano, a avaliação fosse ampliada para mais uma série do antigo colegial. Neste ano, já seriam avaliados os alunos do 2º ano, além do 3º ano novamente. Em 2010, poderia atingir 1,5 milhão de alunos com provas nos três anos do ensino médio. O bônus recebido por quem se saísse bem poderia chegar a 3% da nota da Fuvest."Era mais uma forma de ajudar o aluno de escola pública, mas não teve muita divulgação. Muitos nem souberam da prova", diz a coordenadora do Cursinho da Poli, que atende estudantes de escolas públicas, Alessandra Venturi. Uma dessas alunas, Ana Gabriely Botura, de 17 anos, ficou sabendo da avaliação pelos jornais e disse que a sala onde fez o exame estava preparada para receber 30 alunos e só 5 apareceram. "A data foi mudada, não recebemos nenhum aviso." Ana, que prestava Medicina, também não tem nenhuma informação de como se saiu na prova. "Só sei que não passei na Fuvest."Procurada, a assessoria de imprensa da reitoria da USP informou que a instituição "não foi comunicada oficialmente da decisão da Secretaria da Educação". Em entrevista no mês passado, a reitora Suely Vilela afirmou que ainda analisaria os resultados do Pasusp para decidir se continuaria ou não com o projeto."Precisamos discutir melhor essa questão de democratização do ensino e da desconstrução do vestibular", diz o presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE), Arthur Fonseca Filho. No ano passado, o CEE divulgou um parecer que determinava que o projeto deveria acontecer apenas em caráter experimental, diferentemente do que previa a USP. O documento dizia que "o processo teve uma tramitação apressada e tumultuada". Na época do acordo, o governo pretendia que a avaliação seriada fosse feita com o Saresp, prova elaborada pela secretaria da Educação e que custa cerca de R$ 9 por aluno. A USP preferiu elaborar uma prova própria. FRASESMaria Helena Guimarães de CastroSecretária de Estado da Educação"A Universidade de São Paulo tem todo o direito de fazer,mas a secretaria não vai mais financiar"Alessandra VenturiCoordenadora do cursinho da Poli"Era mais uma forma de ajudar o aluno de escola pública, mas não teve muita divulgação. Muitos nem souberam da prova"Arthur Fonseca FilhoPresidente do Conselho Estadual da Educação"Precisamos discutir melhor essa questão de democratização do ensino e da desconstrução do vestibular"