Governo admite falta de fiscalização

Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

Ministério da Saúde vai avaliar fortificação das farinhas, mas diz que impacto pode vir com o tempo

O Ministério da Saúde, que financia estudos sobre o impacto da fortificação das farinhas de trigo e milho com ferro, reconhece que a medida ainda não demonstrou ter funcionado. Ressalta, porém, que é preciso melhorar e aprofundar os estudos, que têm populações muito diferentes, e esperar mais pelas mudanças.A pasta já iniciou ações contra a fiscalização deficiente dos produtos e diz que criará agora um grupo intersetorial para acompanhar o impacto da medida. Também não descarta investir na fortificação de outros alimentos. "Os estudos ainda não são conclusivos, precisam ser mais bem trabalhados. O importante é que a estratégia é de longo prazo", afirma a coordenadora da Política Nacional de Alimentação e Nutrição da pasta, Ana Beatriz Vasconcellos. O ministério ajudou a financiar o estudo coordenado pela USP.Uma outra pesquisa apoiada pelo ministério, da Universidade Federal de Pelotas, também não encontrou diferenças significativas dos níveis de hemoglobina, indicadores da anemia, entre 2005 e 2006, após o fortalecimento da farinha. Foram avaliadas crianças de 12 a 24 meses.O País não tem um programa organizado de fiscalização da adição de ferro às farinhas, nos moldes do que existe para acompanhar a adição de iodo ao sal, por exemplo, com análises periódicas de amostras de produtos. Hoje, o controle pode ser feito pelos programas de avaliação de produtos alimentícios de Estados e municípios, mas não há um acompanhamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No fim do ano passado o ministério fez a recomendação da criação do programa à Anvisa, que informa já ter selecionado um instituto da Fundação Oswaldo Cruz para o trabalho. Hoje, 25% dos países do mundo adotam a fortificação de farinhas - os EUA e o Canadá o fazem desde os anos 40.CRÍTICASA Associação Brasileira da Indústria do Milho (Abimilho), que reúne 15 fabricantes, cita estudo da Universidade Estadual de Londrina que, antes da norma valer, mostrou redução de índices de anemia após o consumo de fubá enriquecido por crianças. Na opinião de José Ronald Rocha, vice-presidente da entidade, a falta de fiscalização da Anvisa e políticas como a redução de derivados de farinhas nas cestas básicas distribuídas pelo governo federal podem ser a explicação para a ausência de impacto da regra. "A Anvisa implementou, mas não acompanhou nada", critica. Rocha estima que o setor tenha cerca de 200 produtores e teme que poucos estejam investindo na adição, enquanto muitos se beneficiam da falta de fiscalização.A Associação Brasileira da Indústria do Trigo, setor que reúne outros 200 fabricantes, informou que só irá se manifestar nesta semana, em razão de viagem de seus diretores.