Gestação fora de hora

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

A gravidez na adolescência é um problema relacionado à pobreza. Infelizmente, os índices continuam altos

Estudo realizado com 378 mães adolescentes pela médica Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do Programa Saúde do Adolescente da Secretaria Estadual da Saúde, mostra que quase 90% dos filhos frutos dessas gestações precoces acabam sendo cuidados apenas pelas mães, sem ajuda do pai da criança (veja mais dados ao lado). Na falta de apoio necessário, muitas delas acabam abandonando a escola e, com isso, praticamente minam os planos de um futuro melhor. Rosilene Ribeiro, de 17 anos, está grávida de sete meses e é uma exceção a essa regra. Como oficializar o matrimônio não faz parte dos seus planos, ela vai morar com o namorado no fundo da casa da sogra. Entre outras gestantes da mesma faixa etária, aguardava para ser atendida na Casa do Adolescente, programa público de assistência médica e multidisciplinar, dirigido por Albertina, que também promove eventos e atividades voltadas para jovens. Na região metropolitana de São Paulo, existem 15 postos como esse. O pai da criança que Rosilene espera tem apenas 16 anos. Os dois pararam de estudar: ele, para trabalhar e garantir (com o pouco que ganha) o sustento da filha; ela, porque vai precisar cuidar da criança, já que não tem com quem deixar a pequena. "A minha maior preocupação é ter de ficar só em casa, sem poder terminar meus estudos nem trabalhar", diz Rosilene. "Vai ser difícil conseguir voltar para a escola."Nessa situação de estagnação no desenvolvimento pessoal, a auto-estima fica abalada e a chance da reincidência da gravidez é alta. Conforme revela Albertina, estima-se que 40% dessas mães precoces voltem a engravidar em dois anos. Detalhe: sempre de pais diferentes. No Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de bebês nascidos de mães entre 10 e 19 anos aumentou 11,06%, entre 1998 e 2006, tendo ocorrido um salto considerável entre meninas com menos de 15 anos (37,4%). Em números totais, isso representa o nascimento de 1.568 bebês por dia e 65 por hora, todos de mães adolescentes. Há, porém, uma boa notícia. Ao contrário das estatísticas brasileiras, o número de nascimentos desse gênero no estado de São Paulo caiu 32% no mesmo período, de acordo com levantamento da Fundação Seade. É consenso entre especialistas que a gravidez na adolescência não tem como causa a falta de informação. Segundo levantamento realizado por Albertina entre os jovens assistidos pelo Programa Saúde do Adolescente, 90% conhecem os métodos anticoncepcionais. O problema é que quase 80% não fazem uso deles na primeira relação. Pior: 50% não pensaram em nada durante a transa, só no prazer. Apenas 40% se preocuparam em evitar a gravidez, e quase 20% nem sequer sabiam o que era necessário fazer para se proteger. Falta de diálogoPara Albertina Takiuti, que há 20 anos está envolvida com esse tema e trabalha com programas de prevenção de gravidez na adolescência, o problema é a insegurança. "Nas primeiras relações sexuais, as meninas se preocupam muito em agradar o companheiro, enquanto que o garoto tem medo de falhar e se volta para seu desempenho. Dessa forma, a menina segue o caminho da servidão e ele, da dominação. Onde existe insegurança, há dificuldade de diálogo. A conversa entre eles gira em torno dos sentimentos, das sensações da paixão, raramente chegam a falar sobre contracepção ou sexo seguro."Rosilene cedeu aos apelos do namorado, que lhe pediu para deixar a camisinha de lado. "Ele perguntou se eu não confiava nele, e garantiu que não iria me trair", conta a garota, que acreditou que estava protegida de doenças sexualmente transmissíveis, não da gravidez. "Fiquei na dúvida, mas não consegui dizer não, embora soubesse do risco. Mas na hora a gente acha que não vai acontecer nada."Ana Paula Marques coordena o projeto Assistência à Mãe Adolescente (AMA), uma das atividades realizadas pela Associação Suiço-Brasileira de Ajuda à Criança (Brascri), e acredita que a gravidez na adolescência está associada a outro fenômeno. Na sua opinião, tornar-se mãe prematuramente é um mecanismo de defesa, usado inconscientemente pelas meninas, para pular uma fase de suas vidas, pautadas pela falta de perspectiva, repleta de dificuldades e sem sonhos de um futuro melhor. "Sabem que não é fácil manter uma criança, mas, como elas mesmas costumam dizer: ?a ficha não cai? durante a gestação, ou seja, só enxergam toda a problemática quando a criança nasce", explica a assistente social da Brascri. "Como geralmente vêm de famílias numerosas e, muitas vezes, desestruturadas, elas garantem uma situação privilegiada, pois, grávidas, acabam tendo o direito de dormir em uma casa só para elas, entre outras regalias, como ganhar mais atenção e até mais comida."A "ficha está caindo" para Regina Cavalcante, que comemorou seus 18 anos trocando fraldas de sua filha de seis meses. "Usava pílula, mas não respeitava os horários certos de tomar o comprimido", confessa. "Apesar do médico ter explicado a maneira correta, não imaginava que isso causasse algum problema. E, para ser sincera, usei poucas vezes a camisinha. Embora não more com o pai da minha filha, ele assumiu a paternidade e continuamos nos relacionando."Regina parou de estudar para cuidar da bebê, mas pretende voltar às aulas e terminar o colegial. Por causa da gravidez, foi expulsa de casa pelo pai, tendo ido morar sozinha, num quartinho, cujo aluguel era pago com a ajuda da mãe. Com o nascimento da criança, precisou voltar para a casa da família. Apesar de morarem sob o mesmo teto, o pai de Regina não a perdoou: ele não fala mais com ela e nunca chegou perto da neta, nem sequer olhou para a criança. Diante dos obstáculos que vem enfrentando nessa nova etapa de sua vida, a garota manda um recado para as meninas como ela: "antes de qualquer pessoa, temos de pensar primeiro na gente, porque quem vai sofrer as conseqüências somos nós mesmas."Ciclo de pobrezaSe informação não basta, a solução apontada por especialistas é despertar nos adolescentes, meninos e meninas, o interesse pelo futuro, para quebrar esse ciclo. Um dos programas de sucesso nessa área é o do Instituto Kaplan, que nasceu há 16 anos para oferecer serviços de orientação sexual por telefone (SOSex) e, hoje, desenvolve projetos sociais. Um deles, de destaque, é o Vale Sonhar, dedicado à prevenção da gravidez na adolescência - problema relacionado diretamente à pobreza, já que a evasão escolar cresce e a vida profissional é adiada, aumentando ainda mais a exclusão social. O projeto Vale Sonhar mostrou sua eficiência quando foi aplicado numa comunidade de cerca de 11 mil alunos de 24 escolas estaduais de ensino médio do Vale do Ribeira, região mais pobre do estado de São Paulo e com alto índice de adolescentes grávidas. Após um ano de sua implantação, entre 2004 e 2005, o número de gestações caiu 80%. Dois municípios que também participaram do projeto, Pariquera-Açu e Eldorado, tiveram uma redução de 100% no número de gestações. Em 2006, a queda do índice de gravidez nas escolas atendidas pelo projeto foi de 58%. O foco principal, como explica Maria Helena Vilela, coordenadora do projeto Vale Sonhar, é resgatar nos jovens a capacidade de sonhar e criar um projeto de vida, mostrando o impacto da gravidez não planejada nesse futuro. "Embora esteja mais associado à população de baixa renda, esse problema acontece em várias classes sociais", avisa a especialista em Saúde Pública. "Com uma diferença: as que têm poder aquisitivo podem recorrer a clínicas de aborto com maior facilidade." O sucesso do Vale Sonhar impulsionou a expansão do projeto para o Espírito Santo, Alagoas e para todo o estado de São Paulo. De acordo com Maria Helena, a partir deste ano, esse programa entrará no currículo escolar de toda a rede estadual, como uma das matérias de Biologia do primeiro ano do ensino médio - projeto que foi aprovado pela Secretaria Estadual de Educação. Nas aulas, os estudantes vão discutir o tema, seguindo a cartilha moderna, afinal, eles conhecem muito bem os métodos contraceptivos, só precisam descobrir que também podem ter um futuro melhor.