Genes de parasita fragilizam hospedeiro

Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo

Partícula viral de vespa neutraliza sistema imunológico de lagarta

Pesquisadores franceses e suíços descreveram os segredos de uma cooperação muito curiosa: um vírus e uma vespa parasitoide que há milhões de anos convivem juntos para garantir sua mútua conservação. O estudo foi publicado na revista Science no início deste mês.A vespa costuma parasitar lagartas de borboleta, depositando seus ovos dentro delas. Quando eclodem, pequenas larvas começam a se alimentar dos tecidos internos do hospedeiro. Se o sistema imunológico da lagarta identifica a presença dos ovos, tenta envolvê-los em uma cápsula para impedir seu desenvolvimento.Aqui começa a associação entre a vespa e o vírus. Com os ovos, o inseto também injeta na lagarta um líquido rico em partículas virais - envelopes carregados de vírus, conhecidos como polidnavírus. As partículas se rompem e os polidnavírus infectam as células do sistema imunológico da lagarta, que não reconhece mais o parasita como um intruso.Os polidnavírus foram identificados em 1967, mas sempre constituíram um mistério para a ciência. Ao contrário dos vírus convencionais, eles não carregam o material genético necessário para sua replicação dentro das células da lagarta. Sua única ação é afetar o sistema imunológico para garantir o ciclo vital da vespa parasitoide.Agora, os cientistas identificaram onde estão os genes de replicação do vírus: dentro do DNA da vespa. Há cerca de 100 milhões de anos, o material genético de um nudivírus - gênero de vírus identificado recentemente - foi integrado ao genoma do inseto.Tais genes são expressos apenas nos ovários das vespas. Eles produzem as cápsulas virais que funcionam como um cavalo de Troia: levam para dentro das células da lagarta o DNA desenvolvido pela vespa para reprogramar o sistema imunológico do seu hospedeiro.MISTÉRIOO coautor da pesquisa, Jean-Michel Drezen, da Universidade François Rabelais, em Tours (França), afirma que ainda é um mistério como o genoma viral foi incorporado ao DNA da vespa.Mas arrisca duas hipóteses: "Um vírus que, originalmente, causa infecções crônicas nas gônadas pode ter infectado os gametas e, depois, se integrado ao DNA das células", explica Drezen. "Talvez o nudivírus ancestral capturado pelo genoma da vespa seja transmissível sexualmente."A outra hipótese é que o nudivírus ancestral apresente um comportamento semelhante ao de certos vírus bacteriófagos. "Eles apresentam duas fases no seu ciclo vital: a lítica e a lisogênica", aponta o pesquisador. Na fase lisogênica, o DNA viral é integrado ao material genético da célula infectada e é duplicado durante as divisões celulares.Apenas na fase lítica são produzidas cápsulas virais e a célula morre. "Pode ser que um vírus na fase lisogênica tenha sido integrado ao genoma da vespa", afirma Drezen. Já foram identificados nudivírus que passam pelas duas fases."É realmente impressionante a complexidade e a perfeição das relações entre o vírus e a vespa parasitoide", afirma o pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Nivar Gobbi, que estudou durante anos as relações entre os dois organismos.A pesquisa desperta também a polêmica questão da definição de um vírus. Para Donald Stoltz, da Universidade Dalthosie, no Canadá, é "um problema semântico". "Seja lá como decidamos chamar essas entidades (os polidnavírus), o artigo mostrou que eles descendem de vírus reais", argumenta Stolz, em um comentário que acompanha o estudo publicado na Science.APLICAÇÃOAdilson Zacaro, da Universidade Federal de Viçosa, também estuda vespas parasitoides. Ele recorda a importância de estudos como esse."É pesquisa básica", afirma. "Mas poderá ter aplicações em ramos como a terapia gênica." No último parágrafo do artigo, os cientistas fazem referência a essa esperança.Recentemente, o Brasil produziu células-tronco pluripotentes induzidas com o auxílio de vetores virais. "O maior desafio é obter vetores seguros, ou seja, que não promovam uma infecção", explica Zacaro.