Futebol para mulheres

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Livro ensina o bê-á-bá do esporte para aquelas que querem desbravar a paixão nacional, dominada por homens

Cuidado ao chamar algum jogador de futebol de gato. No mundo da bola, ou da gorduchinha, o elogio ganha conotação negativa. Em vez de "bonitão", "gato" é quem mente a idade para ingressar em algum time de base, falsificando documentos - o que é crime. E "chaleira" não tem nada a ver com aquele objeto usado para ferver a água do chá. Numa jogada, a palavra significa: chutar a bola com a lateral externa do pé. Estes são alguns dos termos que Clara Albuquerque explica no livro A Linha da Bola - Tudo o que as Mulheres Precisam Saber sobre Futebol e os Homens Nunca Souberam Explicar! (Editora Gryphus, R$ 33,90).Finalmente, surge um manual para a mulherada aprender o bê-á-bá futebolístico e conhecer regras, táticas, campeonatos, os principais jogadores, e por aí vai. Um alento para quem está cansada de assistir a uma partida sem saber ao menos o que é um impedimento, falta, escanteio, tiro de meta... Uma chance também para o clube da luluzinha invadir o clube do bolinha e começar a fazer parte desse universo tão masculino e, ao mesmo tempo, tão fascinante. "Futebol é uma paixão nacional, porém, mais dos homens. É um mundo do qual nós ainda não participamos de forma significativa", ressalta a autora. "Com meu livro, quero acender essa paixão também nas mulheres. Acredito que a emancipação feminina também deve se estender a esse esporte."Aficionada por futebol, essa baiana de 24 anos joga um bolão. Não que seja boa nas chuteiras. Pelo contrário, ela é uma lástima em campo e só se sai bem mesmo com as sapatilhas de balé clássico, que pratica desde criança. No entanto, a moça sabe muito, mas muito mesmo, do esporte. É do tipo que fala de igual para igual com homens. E não tem coisa melhor do que participar das conversas e dar vários dribles diante de ataques ao seu time do coração, o Vasco da Gama. Sim, ela escolheu um clube carioca, para a infelicidade de sua mãe, torcedora de carteirinha do Esporte Clube Bahia. Aliás, foi a mãe - não o pai, como é de praxe -, que fez brotar em Clara o gosto pelo futebol. Para se ter uma idéia da sua paixão, a autora ganhou uma boneca da avó, quando pequena, e detestou. Ela queria o mesmo presente do irmão: a camisa da Seleção Brasileira. Indignada, chorou e esperneou tanto que a mãe teve de improvisar, recortando no papel a palavra "Brasil" e colando em uma camiseta amarela. Só então a menina sossegou e pôde, feliz da vida, acompanhar na TV a Copa de 1986. - Troco facilmente o cinema de domingo por um jogo de futebol (risos). Tenho uma coleção de livros e revistas sobre o assunto, os quais fui adquirindo desde menina. Na faculdade, escolhi futebol como tema do meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo. Além da cara de espanto das pessoas, por causa da minha escolha, percebi nas pesquisas que não havia nenhum livro de futebol escrito por uma mulher, e os que existiam eram só para conhecedores. Como já estava acostumada a ensinar minhas amigas, resolvi então transformar meu trabalho em um livro, depois de atualizá-lo. Por ser escrito por mulher, o conteúdo não adquiriu tom professoral. Pelo contrário: é bem divertido. A autora une humor e toque feminino - o que agrada tanto a mulheres como a homens. Logo de cara, escreve a história do futebol como um conto de fadas: a bola é a princesa, os craques são os príncipes e o rei, lógico, é Pelé! Nessa breve introdução ao esporte, uma boa descoberta é saber, por exemplo, que a Praça Charles Miller, aquela na frente do estádio do Pacaembu, leva esse nome porque foi este brasileiro - apesar do nome - que trouxe o futebol para o País. Pergunte ao namorado (ou afins) se ele sabe disso e aproveite para fazer bonito ou, no jargão futebolístico, um golaço. COR-DE-ROSAPara aproximar mais os mundos masculino e feminino de maneira agradável, Clara criou um sistema tático. Cada capítulo é dividido em três partes: 1. Pretinho Básico, indicado para quem não sabe nada de futebol, nem mesmo qual é a função daquele homem vestido todo de preto no meio do campo, ou seja, o juiz. 2. Esporte Fino, que oferece informações mais detalhadas para quem já curte futebol, mas não entende muito bem as jogadas, nem os campeonatos. 3. Passeio Completo, parte em que a leitora dispõe de conteúdo mais aprofundado."As mulheres tendem a ver o futebol como inimigo, como aquele que rouba atenção do namorado, marido", diz Clara. "Gostaria muito de mudar essa idéia. Na minha comunidade do Orkut, tenho recebido mensagens legais de leitores de ambos os sexos. Um deles contou que deu de presente o livro para todas as mulheres da família. Uma menina disse que já consegue assistir ao jogo com o namorado." Conhecer o mundo da bola, como lembra a autora, é também uma forma de impressionar o respectivo, o que não deixa de ser um plus, quando se compara àquelas mulheres que fogem de tudo o que envolva esporte. O ex-namorado de Clara, torcedor fanático, se encantou com essa sua paixão. Viviam competindo para ver quem sabia mais, a princípio, de brincadeira. Nas rodas, os amigos diziam que ela entendia mais do que ele. Pura provocação. Mesmo assim, o relacionamento azedou. O atual, no entanto, não é fanático. Desta vez, ela tem o prazer de ser a que mais sabe de futebol. E isso, definitivamente, não tem preço.