Frio e feriado fazem gripe disparar

Emílio Sant?Anna e Filipe Serrano - O Estado de S.Paulo

Apenas no fim de semana, 84 casos da gripe suína foram confirmados no País; transmissão local deve crescer

Uma combinação de baixas temperaturas com a volta do feriado de Corpus Christi e a disseminação do vírus A(H1N1) no Chile e na Argentina pode estar por trás do grande número de novos casos de gripe suína registrados no Brasil neste fim de semana. Além dos 49 novos casos divulgados no sábado, o Ministério da Saúde confirmou ontem que outras 35 pessoas contraíram o vírus da gripe suína. O total de casos confirmados no Brasil saltou para 215, sendo 39% deles (84) registrados só nos últimos dois dias. A maior parte dos casos divulgados ontem está em São Paulo (15). Em seguida vêm os Estados de Minas Gerais (4), Rio de Janeiro (4), Rio Grande do Sul (4), Santa Catarina (3), Alagoas (1), Distrito Federal (1), Espírito Santo (1), Mato Grosso (1) e Paraná (1). Segundo o boletim divulgado pelo ministério, todos os pacientes passam bem. Os detalhes sobre o tipo de transmissão do vírus - se foi contraído dentro ou fora do País - só devem ser divulgados a partir de hoje pelo ministério. Mas, para o infectologista Celso Granato, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a alta quantidade de novos casos indica que já pode estar ocorrendo um aumento de transmissões autóctones - o que significa que os pacientes contraíram o vírus dentro do País. "Não me parece que haja tantos casos de pessoas que estavam viajando. Ainda não estamos no período de férias", avaliou. Até sexta-feira, antes da confirmação dos novos casos, o Ministério da Saúde contabilizava 23 casos autóctones - número ainda insuficiente para caracterizar uma disseminação sustentada do vírus no País. Granato acredita que um aumento de casos pode ser esperado por dois motivos: o clima frio durante o inverno (que começou ontem) e a alta incidência do vírus em países vizinhos. O Chile já tem 3.125 casos de gripe suína e a Argentina, 918. "A preocupação maior está em acompanhar o comportamento do vírus, se há modificações genéticas que resultem em uma doença mais agressiva, que pode atacar pessoas mais vulneráveis, como crianças, idosos e grávidas", afirma.Segundo o infectologista e diretor do Instituto Emílio Ribas, David Uip, o aumento no número de casos já era esperado. "Como estamos no início do inverno e voltando do feriado de Corpus Christi, em que muitas pessoas viajaram para a Argentina, acreditávamos que isso pudesse acontecer", disse. O infectologista Caio Rosenthal, também do Emílio Ribas, concorda que a chegada do inverno no Hemisfério Sul deve favorecer o aparecimento de novos casos de gripe suína. "Todo tipo de gripe se torna mais prevalente nessa época do ano, e com o A(H1N1) não é diferente", disse. "Como as pessoas não têm anticorpos para esse vírus, quem tiver contato com alguém infectado vai pegar."Apesar de o País não ter, por enquanto, a transmissão interna de forma sustentada, como afirma o Ministério da Saúde, o infectologista acredita que esse quadro não demore a se modificar. Chile e Argentina são os países da América do Sul onde isso já acontece. "Não tem porque o Brasil não se igualar a esses países em velocidade de transmissão", afirma Rosenthal.RIO GRANDE DO SULA Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul confirmou durante o fim de semana a ocorrência de cinco casos de gripe suína em Porto Alegre (os primeiros na capital gaúcha) e um em Viamão, na região metropolitana. Com isso, o número de infectados no Estado desde o início da epidemia saltou de um para sete em dois dias.A progressão confirma a tendência de aumento de circulação do vírus que as autoridades sanitárias previam para as regiões meridionais do continente. "O inverno vai aumentar todo o tipo de gripe", disse o secretário de Saúde do RS, Osmar Terra. "A temperatura faz as defesas pessoais caírem e, nessas condições, o vírus se propaga." Ele reconhece que será difícil evitar a multiplicação dos casos. COLABOROU ELDER OGLIARI