Forno, fogão e salão

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

Nos últimos dias do ano, elas trabalham feito loucas para garantir o sucesso das ceias nas confraternizações

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Uma das melhores coisas do Natal é a reunião da família em torno da mesa recheada de pratos típicos da ocasião. Mas esta é uma época em que a maioria das pessoas está esgotada. O final do ano traz inúmeras obrigações, como uma extensa lista de compras, a organização de alguma viagem, a programação das férias escolares, o planejamento dos gastos domésticos, sem falar daquele tradicional balanço do que ficou para trás e do que deverá ser cumprido nos 12 meses seguintes.

 

Diante de uma agenda implacável, como é que fica a ceia, que, afinal de contas, é a parte mais saborosa da festa de Natal? Para que tudo saia em perfeita ordem, cada vez mais o serviço de banqueteiras brilha nessa época do ano. Enquanto as famílias conferem a lista de presentes, elas checam as encomendas que começaram alguns meses atrás. À meia-noite, quando os clientes estão reunidos em clima festivo, algumas profissionais ficam nos bastidores da comemoração, cuidando de cada detalhe.

 

No último mês do ano, o volume de trabalho das banqueteiras aumenta cerca de 50%. Confira um pouco das deliciosas histórias dessas alquimistas, que podem salvar a "noite feliz" de muitas pessoas.

 

 

BIA BRAGA | Ela vivia entre intelectuais, mas queria mesmo era ir para a cozinha. "Naquela época (anos 70), tinha a patrulha do feminismo. Não podia falar que gostava de cozinha e criança." Estudou Psicologia, área em que atuou por 12 anos. Mas estava sempre testando suas alquimias na cozinha. Até que decidiu levar a sério o dom. Começou fazendo cestas de Natal com os produtos que ela mesma preparava. Depois vieram as comidas congeladas e, logo, os jantares. "De repente, ser cozinheira ficou chique", diz, aos risos. Às vésperas do Natal, além das encomendas, organiza confraternizações em seu restaurante, o Feijoada da Bia. No dia 24, entrega as encomendas. No réveillon, prepara os congelados para quem vai viajar. Nesse período, sua equipe, claro, é reforçada.

 

 

NEKA MENNA BARRETO | A banqueteira tem a impressão de que, no Natal, as pessoas querem tudo e vale tudo para ter uma "noite feliz". Até o dia 24, trabalha muito! Faz salada, terrine, peru desossado ou recheado com frutas tropicais (manga, mamão siciliano) e manda uma "bula" com todas as instruções para que o cliente simplesmente possa assar o prato em casa. "Tenho uma cozinha superindustrial." Seus 40 funcionários recebem ajuda de outros 15 extras. A equipe tem de se organizar direitinho para que aquela cliente, fiel há 20 anos, que não gosta de cebola, receba seus pratos "customizados". Os temperos ela deixa para cortar no dia, para que os pratos fiquem com mais sabor. Depois de toda a loucura, Neka embarca para o exterior. Mas, mesmo longe do trabalho, não consegue se distanciar do fogão. "Quando vejo, já estou preparando algum prato. Não tem jeito, é minha fonte de energia."

 

 

CAROL ROXO | Ela se formou em Filosofia, deu aulas por dez anos, mas nunca se esqueceu das reuniões em família – sempre ao redor da mesa. Para turbinar o salário de professora, decidiu vender chocolate. Sua madrinha, que pode ser chamada de fada madrinha, vivia fazendo propaganda da afilhada cozinheira. Até que uma pessoa encomendou um pernil de cordeiro para o Natal. Depois passou a fazer produções gastronômicas para diferentes clientes e eventos. Passado um ano, decidiu só cozinhar.

 

Suas encomendas para o Natal estão sendo feitas desde julho. "Às vezes tenho de recusar." Não faz nenhum evento sem corpo presente. "Sou muito chata", admite. Só tem uma coisa de que não gosta de fazer: salgadinhos. Acompanha os modismos gastronômicos, montando um cardápio "in", no qual já reinaram crepes, camembert com geleia de pimenta servido em torradas coloridas, rolls, coração de alcachofra... Neste Natal, seus clientes vão saborear pratos como cordeiro, pernil, salmão e outras delícias.

 

 

ANDRÉA FASANO | A meticulosidade que a empresária leva para seu bufê está de volta este ano na ceia de Natal da sua elegante clientela, pois Andrea ficou oito anos sem prestar esse serviço. No começo, atendia a festas pequenas. Ao longo de 20 anos, os pedidos foram aumentando. Hoje, chega a servir mil convidados. "Não deixo meu serviço nas mãos de ninguém. Não trabalho sem essa rigidez", assume, ao lado de sua sócia Patrícia Filardi (à esquerda na foto). Seu trabalho começa logo que a data da festa é escolhida. São várias reuniões até entender o que o cliente deseja. Leva até nutricionista, para acompanhar o andamento do serviço e verificar a temperatura dos alimentos. Não é à toda que sua agenda de fim de semana para 2010 está lotada.

 

 

GISLAINE OLIVEIRA | Ela se apresenta como nutricionista por formação e festeira por vocação. Largou a vida de professora para se dedicar à sua doçaria. E foi ali, em 1988, que seus clientes passaram a fazer encomendas para jantares. "Em cozinha trabalha quem realmente gosta." Para ela, o Natal é uma ocasião em que as pessoas valorizam tradição. Às vezes, tenta mudar algum item do cardápio, mantendo dois ou três que são ícones, mas os clientes não deixam. No topo dos pedidos estão o cuscuz, o peru, o camarão e a salada de grãos com romã. Manda tudo prontinho. E criou uma carta de instruções, para que o cliente saiba finalizar os pratos. Do dia 23 para 24, vira a noite preparando os assados. "Quem passa em casa para dar um beijo de Natal acaba trabalhando um pouco. Nem que seja enxugando louça", brinca. Já começa o ano sem reservas para o banquete do Natal seguinte.