Fora de controle

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Movidos pela paixão, homens e mulheres comentem atos grandiosos ou se arrependem por causa de loucuras

"O coração tem razões que a própria razão desconhece." Uma das frases mais citadas para justificar a emoção avassaladora que move os amantes surgiu no século 17. É atribuída a Blaise Pascal, um filósofo e físico francês que, quem diria, é referência ainda hoje quando se trata de amor. Por esse sentimento, muitos são capazes de fazer verdadeiras loucuras - algumas com finais felizes, outras nem tanto.

 

Enquanto há casais que se preparam para comemorar em grande estilo o dia dos namorados, outros tentam esquecer alguma burrada que já cometeram, movidos pela paixão. "Amor é um mistério. Está além de qualquer tentativa de compreensão", comenta a psicóloga Beatriz Helena Paranhos, autora do livro Laços e Nós - Amor e Intimidade nas Relações Humanas (Editora Ágora).

 

Algumas respostas surgem, porém, para explicar atos irracionais cometidos por casais apaixonados. Conforme Beatriz explica, o êxtase da paixão pode ser uma experiência positiva de mudança, na qual a pessoa se torna mais criativa, mais aberta, mais corajosa. Amantes assim acabam vivendo o sublime. "Entram num estado de consciência de maravilhamento que chega a ser um lampejo do sagrado", diz a psicóloga.

 

Essa, aliás, é a preparação para o sentimento mais profundo, chamado amor. O problema aparece, no entanto, quando se fica preso ao êxtase da paixão, que naturalmente tende a se arrefecer. Alguém assim deixa de ter vida própria para viver em função do outro, a fim de preencher sua lacuna emocional.

 

Só que ninguém é o remédio da felicidade do outro, costuma lembrar o psiquiatra Flávio Gikovate, autor de vários livros sobre sexualidade e amor. "Quando nos sentimos completos e satisfeitos por sermos o que somos, aumentamos a possibilidade de sermos bons parceiros." Dessa forma, acredita, é possível evitar desastres na relação.

 

Sobre as demonstrações explícitas de amor, Beatriz e Gikovate lembram que gestos amorosos e delicados são sempre bem-vindos, até mesmo entre amigos. E não só nas datas especiais, mas também no dia a dia, principalmente numa época pautada pela brutalidade e egoísmo.

 

Vale lembrar, ainda, que amor é simplicidade, podendo estar por trás de pequenos gestos. "Não é porque alguém faz uma loucura ou extravagância que vai ser, obrigatoriamente, um companheiro melhor, nem significa que tenha mais valor", avisa Gikovate. "Provas mirabolantes não medem a qualidade do amor. " Como lembra Beatriz, o amor também nasce de gestos rotineiros, aquelas pequenas atitudes que o dinheiro não é capaz de comprar.

 

"Após quase 20 anos de casada, me separei. Um dia estava sem companhia para ir ao cinema e convidei o pai do melhor amigo do meu filho, que também estava separado. Depois do cinema, fomos jantar. No fim da noite, dei-lhe um beijo na boca inesperadamente. Desse dia em diante, nunca mais nos separamos. Foi uma paixão tão forte que em 15 dias fui morar com ele e estamos juntos há um ano."

Fabienne Monnerat, 37 anos, consultora de RH

 

"Sou naturalmente uma apaixonada. Por ser essa a tônica da minha vida, acabo fazendo algumas loucuras. Uma delas considero uma burrada. Um restaurador foi fazer um trabalho na loja onde trabalhava. Quando conseguiu finalizar o serviço, me convidou para comemorar o feito com champanhe. Aceitei e acabamos nos apaixonando. Namoramos por dois anos, até que ele foi morar na Ilhabela (litoral paulista). Larguei tudo: emprego, meu apartamento em São Paulo, enfim, minha vida organizada, para ficar perto dele. Quatro meses depois, terminamos. Fiquei muito mal e perdida. Só depois de um ano que consegui juntar forças para voltar à capital e recomeçar a minha vida."

Lucella Vaniza Zimmermann, 29 anos, representante comercial

 

"Queria reatar o namoro e, por isso, não hesitei em aceitar o convite de uma amiga em comum para ir ao batizado do filho, na cidade de Rosário, na Argentina, pois minha ex seria a madrinha. Comprei as passagens, para um voo direto saindo do Rio de Janeiro, onde estava a trabalho. Mas fui barrado por não estar com o passaporte nem RG original. Peguei um avião para São Paulo, que atrasou muito. Fui de táxi buscar em casa os documentos e voltei correndo para o aeroporto. Peguei um voo para Buenos Aires, depois uma van até Rosário. Mas a viagem de quatro horas demorou bem mais, pois houve um acidente na estrada. Quando cheguei, a festa já tinha acabado, e estava morto. Mas valeu o sacrifício."

Alexandre Privitera, 39 anos, engenheiro

 

"Fiz um pedido de casamento em grande estilo. Um dia, a convidei para jantar e apenas disse que dormiríamos fora. Aí entrei com o carro no aeroporto Campo de Marte. Ela estranhou um pouco, mas disse que tinha de pegar um envelope lá. Como fazia curso de piloto, não chegou a desconfiar. Quando estacionei o carro, veio uma recepcionista entregar um ramalhete de flores e champanhe. Depois seguimos para um passeio de helicóptero pela cidade. Levei anel de noivado e um cartão, no qual perguntava se ela queria casar comigo. Emocionada, ela aceitou. Depois, o helicóptero pousou em um hotel para passarmos a noite. Mas no final de tudo não nos casamos."

Edgard Xavier, 43 anos, administrador de empresas

 

"Nos primeiros encontros, meu ex-namorado pagava tudo. Depois, passou a dizer que estava sem dinheiro. Para bancar nossos passeios, não só parei de poupar como passei a gastar minhas economias. Comprava até roupas para ele, que costumava dizer que seu salário era para ajudar a família e cobrir gastos com o carro. Não achava estranho, pois estava apaixonada. Só acordei quando soube que ele estava me traindo."

Maria Oliveira Pacheco, 25 anos, promotora de vendas

 

"Sou super-romântica e adoro curtir momentos especiais, nem que para isso tenha de enfrentar 14 horas de viagem dentro de um avião, fazendo escalas em aeroportos. Conheci um fotógrafo brasileiro que mora e trabalha em Los Angeles, quando estive nos Estados Unidos, para um curso de administração que durou seis meses. Desde então, não nos desgrudamos mais. O problema é que moro em São Paulo. Por ter mais flexibilidade no trabalho, acabo viajando sempre para encontrá-lo. Fico um mês aqui e três lá. Não é fácil viver nesse vaivém, que já dura dois anos e meio. Mas, para aproveitar tantas idas a Los Angeles, pretendo abrir uma filial do meu negócio por lá."

Alessandra Nahus, 35 anos, proprietária de duas clínicas de beleza e estética

 

"Namorava há dois anos e meio e nos preparávamos para casar. Mas, nos últimos meses, ele passou a me proibir de fazer as minhas coisas. Numa das vezes, disse que estava proibida de sair com amigos. O pior é que, antes de ele ser explícito, me deixei ser conduzida sutilmente, pouco a pouco. Fiquei cega. Gostava muito dele e fui abrindo mão de muita coisa em prol de um ideal de casamento. Até que um dia acordei, pois comecei a me sentir muito só - justo eu, que sou muito sociável e independente. Hoje vejo como me prejudiquei nessa relação. Mas também foi um aprendizado."

Mariella Gallo, 38 anos, coaching

 

"Minha primeira namoradinha tinha 15 anos e eu, 13. Ela usava óculos, eu não gostava muito, mas batia no peito e falava orgulhoso que ela era mais velha do que eu. Mas sempre fui meio relapso com ela. Até que um belo dia ela resolveu que não ficaria mais comigo. Só depois de perdê-la definitivamente é que comecei a dar valor e percebi o quanto a amava. O tempo passou, ela começou a namorar e parecia ter me esquecido. Solteiro e arrependido, eu só pensava nela. Fiz uma composição para ela e, durante uma apresentação no programa Astros, do SBT, a banda tocou a música. Mesmo sem avisar, ela assistiu à apresentação e ficou emocionada. Embora o retorno não tenha acontecido, torço por isso."

Renan Prado, 22 anos, baixista e compositor da banda Stimativa

 

Fomos morar juntos há cinco anos, e cada um tem duas filhas de casamentos anteriores. Durante todo esse tempo, minha mulher sempre comentava que, se um dia se casasse comigo, gostaria que fosse assim ou assado. Então resolvi me casar com ela numa festa surpresa, no dia em que ela completou 40 anos, em maio. Com a ajuda das filhas, de minha mãe, da minha sogra e da minha irmã, organizamos tudo em segredo. Falei para ela que comemoraríamos o aniversário em uma festa de gala. Fui com ela escolher um vestido, aluguei um espaço e fui atrás de tudo: músicos, convites (surpresas) e até decoração. Como ela adora margaridas, encomendei muitas para enfeitar o local." 

Edgar Cuccolo, 39 anos, administrador hospitalar