Floresta secundária é mais vulnerável do que a original

Ana Bizzotto - O Estado de S.Paulo

Áreas replantadas têm mesmas funções ecológicas e menos diversidade

O reflorestamento tem o papel de conservar a biodiversidade da mata atlântica e retomar as funções ecológicas que a tornam tão importante. Mas é possível fazer com que uma floresta secundária avance para a condição de floresta nativa? Segundo a diretora de restauração florestal da SOS Mata Atlântica, Ludmila Pugliese, as florestas secundárias geralmente não conseguem atingir as mesmas condições ecológicas que as primárias, mas também têm o seu valor. "Uma floresta estabelecida, ainda que secundária, absorve água e forma um reservatório natural, impede o assoreamento dos rios e gera emprego e renda para quem atua na restauração." A manutenção de funções ecológicas na floresta secundária depende de seu desenvolvimento. "Se ela atingir determinado tamanho, diversidade e microclima adequado, poderá ter funções semelhantes às da mata nativa", analisa Ludmila. A capacidade de absorver carbono é uma das diferenças entre as duas florestas. "Em uma floresta estabelecida, as árvores já atingiram seu estoque. A mata secundária sequestra muito mais carbono, porém isso não a torna melhor que a primária", explica. Um estudo inédito realizado pela consultoria Key Associados, em parceria com a SOS Mata Atlântica e a Universidade de São Paulo (USP), mediu a capacidade de absorção de gás carbônico de árvores nativas plantadas em áreas de reflorestamento. "Concluímos que uma árvore média absorverá 321,4 kg de CO2 num prazo de 20 anos", afirma o coautor do estudo, Jeanicolau Simone de Lacerda. O grau de biodiversidade é um dos principais fatores que diferenciam florestas primárias e secundárias. Segundo o pesquisador do Instituto de Pesquisas Tropicais Smithsonian, William Laurence, esse grau depende de vários aspectos, especialmente a idade e a existência de remanescentes de mata nativa nas proximidades. "Em geral, a mata secundária apresenta estrutura, microclima e composição de espécies de flora e fauna diferentes da primária." De acordo com o diretor de conservação da BirdLife/SAVE Brasil, Pedro Develey, processos ecológicos como dispersão de sementes, polinização e regeneração são mais complexos em matas nativas. Em sua tese de doutorado Efeitos da fragmentação e do estado de conservação da floresta na diversidade de aves de mata atlântica, Develey comparou a diversidade de espécies de aves entre uma área primária (Parque Estadual de Jurupará, na Serra do Mar) e duas áreas secundárias (Parque Estadual da Cantareira e Reserva do Morro Grande), todas localizadas no Estado de São Paulo. Entre as espécies ameaçadas de extinção, ele identificou 15 na Serra do Mar, 9 no Morro Grande e 5 na Cantareira. "Alguns grupos prejudicados em matas secundárias são os frugívoros de dossel e os insetívoros de solo, que precisam de ambientes sombreados e úmidos. Por sua vez, espécies típicas de borda se beneficiam em áreas reflorestadas." FRAGILIDADE No artigo Efeitos de borda conduzem fragmentos de florestas tropicais em direção a estágios sucessionais iniciais, o professor da Universidade Federal de Pernambuco Marcelo Tabarelli conclui que a fragmentação do hábitat e a criação de bordas artificiais diminuem a habilidade de florestas neotropicais reterem biodiversidade e prestarem serviços como fixação de nutrientes, proteção do solo e produção de água. Ludmila Pugliese explica que a área de borda facilita a penetração do vento e torna a floresta muito suscetível à entrada de espécies de fora. "Essa pressão provoca impactos como a compactação do solo pelo gado, que traz sementes de capim para a mata, aumentando o risco de incêndio." Segundo Laurence, as florestas secundárias são "definitivamente mais vulneráveis que as primárias", principalmente em relação ao fogo. "Na Amazônia, a idade média de uma floresta secundária é de apenas seis ou sete anos, já que muitas são queimadas mais de uma vez." Develey também aponta o menor número de espécies de árvores e o maior número de indivíduos de uma mesma espécie como fatores de fragilidade de uma área reflorestada. "Se uma praga atingir uma espécie dominante, haverá uma grande mortalidade. Uma forte geada pode causar o mesmo efeito." Ludmila avalia que a perda de espécies na mata secundária está relacionada ao ambiente mais aberto. "Intervenções como corte de cipó e plantio de espécies que funcionem como uma barreira podem contribuir para a restauração e a conservação das florestas", sugere.