Fases do feminino

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

As novas balzaquianas podem ter 30, 40, 50, 60 anos ou mais. Afinal, a tal da beleza pode ter infinitas interpretações

Diferentemente de gerações passadas, a mulher atual, além de somar realizações pessoais e profissionais, tem a seu favor recursos da medicina moderna, estética e fitness. Três profissionais das áreas de dermatologia, nutrição e beleza explicam o que acontece nas fases do feminino, citando as principais mudanças que ocorrem com a idade. No entanto, o segredo para não se tornar caricata - a exemplo da personagem de Elizabeth Savalla na novela global Sete Pecados, uma viciada em tratamentos estéticos - é não se apegar desesperadamente à aparência, que é fugaz. Começando pela saúde, a nutricionista Daniela Jobst elaborou um cronograma antienvelhecimento. Segundo ela, dos 25 aos 35 anos, os hormônios ativadores das funções orgânicas estão em seus níveis máximos. "O risco cardiológico nesta fase se dá pelo sedentarismo, que leva a um aumento do percentual de gordura e atrofia muscular." A dica é manter uma dieta saudável com alimentos integrais e orgânicos (livres de agrotóxicos e hormônios), vegetais, frutas, e evitar gorduras saturadas, hidrogenadas (trans) e alimentos industrializados.Dos 35 aos 45 anos, os níveis de DHEA - hormônio produzido pelas glândulas supra-renais, que retarda o envelhecimento - começam a cair: até 20% nos homens e até 40% nas mulheres. Nessa fase, inicia-se a perda da densidade óssea e o aumento das taxas de colesterol e triglicerídios, naqueles que não têm cuidados alimentares e são sedentários. A alteração nas fibras de colágeno e elastina dá início à formação de rugas superficiais. "O controle da qualidade da alimentação tem que ser aumentado e a prática regular de atividade física torna-se quase obrigatória, incluindo musculação, principalmente para os sedentários." Deve-se ainda acrescentar fontes de vitamina C, cobre e silício, e iniciar suplementação antiaging. A nutricionista observa que, nos últimos 20 anos, triplicou o número de mulheres que engravidam nessa faixa etária, quando o risco de pressão alta na gestação é duas vezes maior.Entre 45 e 55 anos, os níveis dos hormônios estimuladores das funções orgânicas caem mais e o hormônio cortisol - que causa declínio imunológico, neurológico e aumento do depósito de gordura corporal - aumenta em até 30%. A perda de massa óssea pode chegar a 0,3% ao ano. Os sucos digestivos e a velocidade de trânsito intestinal começam a diminuir. Recomendação: com supervisão médica, a estimulação glandular ou reposição hormonal bioidêntica (com hormônio igual ao produzido pelo organismo) é indicada, assim como a atividade física, preferencialmente, sob supervisão profissional. "Incluir na dieta alimentos do grupo das oleaginosas, como soja, castanhas, nozes e amêndoas, e os antioxidantes, como açaí, berries, amora, maçã, tomate."Já dos 55 aos 70 anos, os níveis hormonais e as funções orgânicas praticamente despencam (o hormônio de crescimento cai em até 65% em relação aos jovens, os níveis de DHEA caem em 50%, o hormônio da tireóide também cai e diminui a velocidade do metabolismo). No período pós-menopausa, aumenta a massa gorda em até 35% e continua o processo de perda da massa óssea com risco de osteoporose, além da diminuição dos sucos e funções digestivas e intestinais. Sinal vermelho: aumento do risco de aterosclerose, acidentes vasculares cerebrais e enfarte; estresse oxidativo que leva à degeneração dos tecidos. A alimentação deve ser focada na melhora de todos os sintomas (climatério, aumento de gordura corporal), aliada a uma adequada suplementação. Incluir no cardápio fontes de cálcio como tofu (queijo de soja), vegetais verde escuro e salmão. Importante: ingerir alimentos ricos em nutrientes formadores do colágeno, como os que contêm vitamina C (laranja, morango, limão, acerola, etc.); cobre (soja, amêndoa, feijão, lentilha, grão-de-bico); manganês (feijão, lentilha, nozes, etc.); vitamina A (alimentos amarelos-alaranjados, como tomate, cenoura, mamão, abóbora) e antioxidantes (tomate, cenoura, mamão, abóbora e outros amarelos-alaranjados) e Vitamina E (óleos, sementes, etc.).Nessa faixa etária, igualmente importante é a prática de atividades físicas. No livro Envelhecimento Saudável - Manual de Exercícios com Pesos (Shieldbooks), o fisiologista Vagner Raso traz depoimentos pessoais, explicações médicas em linguagem didática, além de dicas de exercícios que podem ser feitos em casa. Segundo pesquisas, além do bem-estar e da independência física, os exercícios com pesos diminuem em cerca de 60% os sintomas depressivos de pessoas idosas.PELE Segundo a dermatologista Denise Steiner, a oxidação é um dos grandes vilões no processo de envelhecimento. Causada por exposição excessiva ao sol, estresse, alterações hormonais, entre outros fatores, a inflamação subclínica (invisível a olho nu) danifica as células.Denise explica que, a partir dos 30 anos, ocorrem discretas alterações na pele. A hidratação vai diminuindo, assim como a produção de colágeno. Surgem algumas manchas e sulcos e é comum ocorrer a acne da mulher adulta, que, diferentemente daquela da adolescência, é gerada pelo estresse da vida moderna. Aos 40 anos, surge um ou outro problema hormonal. O bigode chinês (região abaixo do nariz, na lateral) fica mais evidenciado. Nota-se a queda do contorno do rosto (entre a orelha e o queixo). Surgem linhas abaixo dos olhos, rugas, vasinhos, pouca gordura nas maçãs, linhas horizontais no pescoço, preguinhas nos lábios superiores, manchas. Em relação ao corpo, flacidez e celulite já começam a incomodar.Aos 50, fase do climatério, a queda do estrógeno acentua a desidratação da pele. O ideal é começar a repor colágeno. A flacidez piora e a pele do corpo fica ressecada a ponto de incomodar. O rosto perde gordura acima das maçãs, o lábio afina e perde o contorno. Na região dos olhos, bolsas de gordura se instalam sob as pálpebras inferiores. As manchas no rosto ficam mais acentuadas. A cintura perde definição e a gordura abdominal é comum nessa idade. Aos 60, as mudanças são bem mais perceptíveis, começando pela alteração da superfície da pele, ressecamento, manchas, asperezas na pele dos pés, mãos e cotovelos; sobra de peles; colo muito marcado; cabelos brancos e ralos.Não dá para generalizar os tratamentos em cada fase, lembra Denise. Os procedimentos de consultório (laser, preenchimento, botox, fórmulas) variam caso a caso. Porém, como rotina comum a todas as idades, é importante aplicar filtro solar, além de limpar, tonificar, hidratar e nutrir a pele com produtos compatíveis (pele normal, seca, mista ou oleosa). Como coadjuvante antiidade, é interessante combinar o uso de vitamina C via oral e zinco. "Além de fortalecer o colágeno da pele, a vitamina C ajuda a combater vasinhos sanguíneos superficiais e manchas causadas pelo sol. O zinco controla a oleosidade da pele e do couro cabeludo, problema que pode ocorrer na maturidade."MAKE UPPara Marcos Costa, maquiador oficial da Natura, maquiagem é sinônimo de personalidade. Por isso, se independentemente da idade você gosta de batom vermelho, vá em frente. "Se na década de 80 a mulher de 30, 40 anos não usava olho esfumaçado, hoje, tem aquelas que gostam de preto e que ficam bem", fala. A partir dos 30, é importante escolher cosméticos com FPS 15 e vitamina E para proteger a pele dos radicais livres, lembrando que a base deve se fundir com o tom da pele. "Nessa idade, ainda é liberado o brilho na maquiagem. Uma combinação que gosto muito é sombra azul e marrom." Aos 40, lembra o maquiador, quando aparecem as primeiras linhas de expressão, cuidado para não marcar com lápis ou delineador preto a pálpebra inferior. Aos 50, sinal vermelho para a maquiagem pesada. "Uso muito pouco o corretivo porque, dependendo, ele pode acentuar as imperfeições ao invés de camuflá-las." Uma dica é abusar do rímel, artifício que levanta o olhar. Aos 60 e mais, segundo Marcos, nada supera a pele perfumada, um rosto levemente corado com blush e um batonzinho vermelho. "Os cabelos brancos assumidos são lindos e suavizam as rugas!", diz ele, que, em seu livro Eu Amo Maquiagem, homenageia a mulher de 80 anos .PESQUISASerá mesmo que a mulher madura é como um bom vinho ou está mais para vinagre? Estudo levantado pela Dove em nove países - com parceria de Nancy Etcoff, da Harvard University, Susie Orbach, da London School of Economics, e Robert Butler, presidente e CEO do International Longevity Center (organização política de pesquisas focadas no combate ao estereótipo com relação à idade) - aponta uma visão distorcida da sociedade em relação às mulheres com mais de 50 anos. Intitulada "A Beleza Amadurece", a pesquisa traz a opinião de 1.459 mulheres, com idades entre 50 e 64 anos, dos Estados Unidos, Canadá, México, Brasil, Reino Unido, Itália, Alemanha, França e Japão. A percepção geral das entrevistadas em relação à idade é para se pensar: 57% concordam que, se as revistas refletissem a população, seria possível acreditar que mulheres com mais de 50 anos não existem; 87% relatam que não são como suas mães quando elas tinham esta idade; 89% acham importante cuidar de sua aparência física em vez de disfarçá-la e, no Brasil, esse número passa para 97%; 75% relatam que comerciais de produtos antienvelhecimento muitas vezes apresentam imagens não realistas de mulheres de 50 anos ou mais usando seus produtos. Resumo da ópera: 92% das brasileiras acreditam que está na hora de a sociedade mudar e rever conceitos tais como "aos 50, a mulher deixa de ser produtiva, não curte sexo, não liga para a aparência e não flerta."