Fãs de lingeries

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Consumidoras de lingeries motivaram uma transformação no setor, que hoje tem variedade e tecnologia de ponta

   Marlene lota seu guarda-roupa com modelos luxuosos que compra todo mês. Foto: Alex SilvaAssumidamente apaixonada por lingeries, a administradora de empresas Luciana Pugina, de 36 anos, considera o Brasil o paraíso das compras neste segmento. "Pelo menos uma vez por semana, passo na minha loja favorita, uma outlet multimarca, para comprar alguma coisa." Luciana engrossa a massa de consumidoras responsável pela compra de mais de 800 milhões de peças de lingeries por ano no País, setor cujo faturamento anual tem ficado na casa dos R$ 4,5 bilhões. A demanda é tão grande que a produção nacional se tornou referência lá fora. Pelo terceiro ano consecutivo, os lançamentos acontecem primeiro aqui e só depois vão para o mercado internacional. A organizadora do Salão Lingerie Brasil, Ana Flôres, comemora o feito. "Nossos produtos são considerados um dos melhores do mundo e, hoje, equiparam-se às famosas marcas francesas", avisa. Essa virada não foi à toa. Mulheres cada vez mais exigentes e ávidas por novidades impulsionaram o desenvolvimento de tecnologia na produção das peças, que vão desde o fio de última geração, ao tecido com uma série de benefícios e, no fim dessa cadeia, peças que aliam beleza e conforto. Bem diferente de tempos atrás, quando usar uma calcinha e um sutiã lindos de morrer era quase uma tortura, pela falta de conforto. A variedade e qualidade que existem no mercado atual fazem a felicidade de consumidoras como Luciana. "Hoje está mais fácil suprir essa minha paixão do que anos atrás, pois, além do aumento da oferta, os preços ficaram mais acessíveis", avalia a administradora. "Encho minha gaveta com lingerie, gastando menos e com mais variedade de modelos. " Lingerie para Luciana não está apenas associada à sensualidade, mas também ao prazer pessoal de ficar intimamente bem-vestida.DIA-DIADe acordo com dados do setor, o mercado das peças casuais abocanha a maior fatia (70%), e o restante (30%) fica para as de luxo. Para Gilberto Romanato, um dos sócios da Universo Íntimo, que reúne as marcas Nu.luxe, Un.i e Un.i Sleepwear, por mais que os fabricantes sigam hoje as tendências da moda, as brasileiras preferem as cores chocolate ou tom da pele, branco e o famoso pretinho básico. Entre as mudanças desse mercado, os sutiãs estão passando por uma revolução. "Por causa dos seios siliconados, os tecidos que antigamente eram mais grossos, para dar maior sustentação e mais segurança às mulheres, deram lugar aos mais leves e confortáveis", aponta Romanato. "A modelagem vai muito além dos básicos de antigamente, e tem crescido muito a procura por lingeries funcionais." Funcionais são aquelas peças que aumentam, diminuem, sobem ou juntam os seios. Ou, ainda, calcinhas que camuflam a barriga, levantam o bumbum, disfarçam culotes. Tudo com design moderno, como lembra Romanato, bem longe daqueles tecidos que pareciam lona, de tão grossos.Por serem peças de alta-tecnologia, sutiãs vêm se tornando um aliado e tanto. Após uma pesquisa entre suas consumidoras, a marca Liz passou a oferecer um serviço de "educação", ensinando-lhes a como escolher o modelo correto, conforme a largura das costas e tamanho dos seios. E lançou peças com modelagens que seguem padrões internacionais.Desde o início da campanha, em 2005, a marca atendeu, em quiosques promocionais, quase 7 mil mulheres em todo Brasil. E a vasta linha de sutiãs - que oferece uma gama maior de tamanhos do que os tradicionais P,M,G - ajudou a alavancar as vendas. "A consumidora atual não aceita comprar um produto que não seja confortável", diz Ligia Buonamici Costa, diretora de Marketing.EM EXIBIÇÃOA lingerie também deixou de ser apenas roupa de baixo. Em vez de ficar escondida, agora é para ser sutilmente vista, seja com um sutiã de alças à mostra ou um decote profundo, que revela algum detalhe. Ou, ainda, peças que são tão chiques que podem ser usadas como uma roupa. Tendências que não têm mais limite de idade. Marlene Vieira Russi, de 58 anos, não se melindra em usar seus corseletes de seda rendada sob um blazer. Nem mesmo uma blusa de pijama que, de tão discreta e chique, acaba vestindo-a no dia-a-dia. Fanática por lingerie, a dona de casa, que está em seu segundo casamento, nunca dispensou um belo conjunto de calcinha e sutiã, assim como outras peças para a noite. "Compro e uso tudo, não apenas nas ocasiões especiais. Todos os dias e momentos pedem lingerie impecável, pois me sinto mais feminina", conta Marlene. "Fico felicíssima quando adquiro algo novo. Nem quando fiquei sozinha, depois da minha separação, deixei de comprar. Faço esse agrado para mim mesma, mas meu marido não reclama nem um pouco."A obsessão por lingerie é tamanha que reserva seis gavetas só para guardar suas peças íntimas, e uma parte de seu guarda-roupa para armazenar suas 33 camisolas, 8 robes luxuosos, além de acessórios como sapatinhos. Marlene calcula que desembolsa cerca de mil reais por mês com esses mimos. A proprietária da marca Mari. M, Marici Martini, prepara-se para investir mais, aumentar a produção e lançar até uma linha de lingerie sensual para gestantes - sim, elas também querem fazer bonito. "Apesar dessa época de insegurança, sempre chega pedido", diz Marici, que tem uma única loja e vende também por atacado para vários pontos do Brasil. E olha que o preço de seus produtos, que seguem a linha luxo, não é dos mais populares. Fabiana Sucar Dib, uma das proprietárias do Depósito de Meias São Jorge - que existe há 53 anos, com loja na Rua 25 de Março -, acompanha as mudanças comportamentais da sua clientela. "De uns quatro anos para cá, as próprias adolescentes começaram a comprar suas peças", fala. "Antes, as mães se encarregavam dessa tarefa." De olho nas teens, fabricantes passaram a oferecer uma linha exclusiva para essa faixa etária. São os chamados modelos "fashion", que seguem a moda e levam uma pitada de humor nas suas estampas.