Fantasias sexuais de Carnaval

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Todo Carnaval é a mesma coisa: mais de mil palhaços no salão. E odaliscas, diabinhas, enfermeiras, domésticas ... A criatividade leva nota zero, mas o efeito do disfarce surpreende se a intenção é seduzir. Manter relações sexuais com uma mulher em trajes lúdicos é a segunda fantasia sexual mais ambicionada pela ala masculina. Não é à toa que as mascaradas Tiazinha e Feiticeira fizeram tanto sucesso na TV em anos passados. Na enquete organizada pela reportagem no Portal Estadão, esta foi a opção escolhida por 12% dos 923 homens participantes.Chicotinhos, véus e plumas só não são mais eficientes do que a capacidade humana de imaginar cenas eróticas. Sexo a três, popularmente conhecido como ?ménage à trois?, é a grande preferência nacional dos rapazes, com 53% dos votos. E das mulheres também, com uma básica diferença na formação do triângulo: ao invés de dividir o parceiro e a cama com outra mulher, 27% das entrevistas sonham em fazer sexo com dois parceiros.A liberalidade feminina, mesmo que restrita ao anonimato assegurado pela internet, surpreende até especialistas no assunto, como o psicólogo e terapeuta sexual João Batista Pedrosa. ?O resultado é esperado para os homens, já que a idéia de transar com duas mulheres ao mesmo tempo está associada ao poder, à dominação de duas fêmeas. Para a mulher, o resultado surpreende muito, já que ela é tradicionalmente mais ciumenta?, diz o profissional.Como presidente da Sociedade Brasileira para os Estudos da Sexualidade Humana (Sbrash), Oswaldo Martins Rodrigues Júnior explica que fantasia e prática sexual são conceitos distintos. ?Muitas vezes, o prazer está no próprio ato de imaginar. Há fantasias inviáveis e outras até realizáveis, mas com alto poder destrutivo. Fantasiamos o tempo todo: do prato que iremos comer no jantar à viagem de férias. Fantasias exercem um importante papel na vida: por meio delas nos mobilizamos, planejamos. Boa parte da população fantasia que vai para o céu e, à custa desta fantasia, vive.?Rodrigues Junior coleciona casos de excentricidade sexual. Terapeuta de casais há mais de 20 anos, ele questiona a suposta liberação sexual pela qual estaria passando a sociedade atual. Afinal, vem do seio desta mesma sociedade o interesse por práticas pouco convencionais, como sexo a três. ?No passado, essas situações eram veladas, mas também existiam. Um psiquiatra norte-americano constatou que no Texas dos anos 60, em meio ao conservadorismo do local e da época, já havia anúncios de jornal que sugeriam a procura por gente interessada em troca de casais.?A concretização das fantasias sexuais é mediada por questões éticas, religiosas e até legais. No caso do sexo a três, por exemplo, vale lembrar que há pouquíssimo tempo o adultério era considerado crime no Brasil. Nos EUA, o rigor da lei sob a prática sexual dos cidadãos beira o retrógrado. Em 1988, um homem chegou a ser condenado a cinco anos de prisão por ter confessado, em corte judicial, que havia praticado sexo anal com mulher. O presidente da Sbrash relata tal passagem em seu livro Objetos do Desejo - Das Variações Sexuais, Perversões e Desvios, lançado pela Iglu Editora. Também ali, há registros sobre a punição destinada aos praticantes da masturbação. A partir do século XI, o ?acusado? era considerado herege e passível de ser queimado na fogueira.Para o psicanalista G. Fogel, da Universidade de Columbia, ?virtualmente todos têm fantasias sexuais aberrantes?. Algumas delas incluem algo que a psiquiatria classifica como fetiche, ou seja, objetos, lugares e partes do corpo capazes de provocar excitação, mesmo quando dissociados da prática sexual. Quem não se lembra de Araponga, o detetive que colecionava calcinhas? Ousado, o personagem ajudou a reconstruir a fama de sedutor de Tarcísio Meira.O sucesso de Araponga se explica, em parte, por sua identificação com o público. No livro Fetiche - Moda, Sexo e Poder, a americana Valerie Steele garante que os homens têm fetiches com freqüência duas vezes e meia maior do que elas. Por aqui, uma pesquisa da terapeuta Deise Gê com 1.500 homens descobriu que os pés são o elemento fetichista mais atraente para os brasileiros. Sendo assim, em tempos de folia, a dica é começar a produção de baixo para cima.