Falha e falta de leito matam 3 bebês

Chico Siqueira, ARAÇATUBA - O Estado de S.Paulo

Demora causa morte de gêmeas em Fernandópolis; gestante não é atendida em Junqueirópolis

O Ministério Público Estadual deve abrir hoje investigação criminal para apurar a morte de duas gêmeas prematuras por falta de vagas em UTI neonatal na região de São José do Rio Preto. A morte das duas pode ter sido causada por uma falha da Central de Regulação de Vagas, da Secretaria de Estado da Saúde. A alegação é de existiam leitos disponíveis nos hospitais da região, mas a informação repassada pela central é de que não havia nada na ocasião.As crianças eram filhas da doméstica Rita de Cássia dos Santos, de 28 anos, que entrou em trabalho de parto na Santa Casa de Fernandópolis no dia 10, com 29 semanas de gestação. Como não havia leito em UTI neonatal, o hospital fez o pedido para a Central de Regulação de Vagas, que não conseguiu nenhuma vaga. Os médicos tentaram adiar o parto, mas, quando conseguiram uma vaga, apenas no dia 12, um dos bebês já estava morto havia dois dias. O outro bebê foi levado para a Santa Casa de Jales, cidade a 10 km de Fernandópolis, e morreu no dia 14, de infecção.As vagas existiam em Jales, segundo a Santa Casa daquela cidade, desde o dia 10. Médicos dos dois hospitais afirmaram que se as crianças tivessem sido internadas numa UTI neonatal no dia 10, não teriam morrido - e que a lentidão do sistema contribuiu para as mortes."Achei que elas tinham morrido por obra de Deus ou por outro motivo, mas vejo que erraram comigo, me deixaram com esse sofrimento. Quero justiça", afirmou a mãe.A assessoria da Secretaria de Saúde informou que a Central de Vagas consultou hospitais da região e que a informação recebida era de que não havia vagas. A Secretaria vai apurar se havia leitos em Jales e Votuporanga no dia 10. De acordo com a assessoria, a Santa Casa de Fernandópolis deveria ter insistido com o pedido de vagas no dia 11, o que não ocorreu.PASSEIONo domingo, a dona de casa Mônica Barbosa, grávida de nove meses, deu entrada na Santa Casa de Junqueirópolis (SP), mas perdeu o bebê porque não havia obstetra para fazer o parto. Escalado para o plantão, o médico Sebastião Franceschi Filho não apareceu no hospital. "Ele foi fazer um passeio no Rio Aguapeí", acusa o delegado Aderson Moisés Vieira. A mulher chegou ao hospital por volta das 13 horas com dores e pressão alta. Foi atendida pelo pediatra Carlos Massao Yanagishita. Segundo o delegado, o médico disse que "não era hora do parto" e liberou Mônica. Com contrações, ela voltou à Santa Casa no fim da tarde. Esperou duas horas até ser atendida pelo obstetra Valter Caloni, chamado às pressas ao hospital.Ele constatou a morte do feto e internou Mônica, que na madrugada de segunda-feira teve de ser submetida a uma cesariana para a extração do feto - uma menina, de 2,5 quilos. O parto foi realizado por Franceschi Filho. Ao falar ao Estado, ele confirmou o passeio e acusou Yanagishita de negligência."Ele não devia ter liberado a paciente com pressão alta (16 por 10), houve negligência. Não nego o passeio. Qual é o problema? Tinha outro médico de sobreaviso. Tenho um acordo com o Caloni. Quando um não está, o outro é chamado", disse. O pediatra não quis comentar as acusações e disse que o estado de Mônica era bom. A Santa Casa informou que punirá os culpados. COM SANDRO VILLAR