Experimentei a sensação de estar viva

- O Estado de S.Paulo

Daria para escrever um livro só para contar o que mudou na minha vida apenas algumas horas depois de ter escrito a última coluna. Na consulta com meu obstetra, ele avaliou que, como eu continuava sem dilatação alguma, não valia a pena esperar que eu chegasse às 41 semanas de gestação. A cesariana foi, então, marcada para o dia seguinte, 30 de maio, uma quarta-feira.Como?!! É, foi como eu reagi diante da decisão do meu médico. Eu precisava de mais tempo para conviver com a idéia. Depois de nove meses carregando meu filho no ventre, deu um certo medo pensar em sair de casa com hora marcada para buscá-lo.Mas o argumento de que a cirurgia diminuiria os riscos do parto me convenceu. Eu e meu marido saímos do consultório às pressas, avisamos as famílias e providenciamos os detalhes finais.Como eu disse, poderia escrever um livro contando as horas que se seguiram. A noite maldormida renderia um capítulo. Não consegui pregar o olho tentado prever como seria o meu próximo dia. Já no hospital, na mesa de cirurgia, o atraso de uma hora do meu obstetra pareceu uma eternidade e quase me fez desistir de tudo - se é que isso é possível. Também seriam cômicos não fossem trágicos os sustos que dei na anestesista com meus sucessivos gritos. Aí, as frases "passe o bisturi!" e, minutos (segundos?) depois, "tá nascendo!" foram outro episódio marcante.Mas reconheço: só fiquei completamente desarmada quando colocaram aquela criaturinha linda e chorosa do meu lado para que eu a beijasse. Até aquele momento mágico, eu ainda não tinha experimentado a sensação de estar viva.*Jornalista e mãe de primeira viagem