Exibido no Festival de Cannes, ''Linha de Passe'' é muito aplaudido

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo

Concorrente brasileiro à Palma de Ouro foi recebido calorosamente na sessão para a imprensa

Embora o diretor seja brasileiro e a O2 participe, como produtora associada, da engenharia de financiamento de Ensaio sobre a Cegueira - que Fernando Meirelles foi mostrar ontem ao autor do romance, o escritor José Saramago, em Lisboa -, o filme concorre em Cannes sob as bandeiras do Canadá e do Japão. O concorrente brasileiro à Palma de Ouro é Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, que foi exibido ontem pela manhã à imprensa mundial. Linha de Passe foi calorosamente aplaudido, mesmo que, depois, na coletiva que a dupla de diretores e o elenco concederam, não houvesse muita gente.As coletivas aqui em Cannes só lotam quando têm astros de Hollywood. Para ver Angelina Jolie, existem jornalistas - críticos? - que seriam capazes de se pendurar no lustre da sala de conferências.Linha de Passe é um belo filme. Conta a história de uma mãe e seus quatro filhos - ela está prestes a dar à luz ao quinto. A família é disfuncional. Cada filho tem um pai diferente e o filme prossegue com aquela busca do pai que interessa ao diretor desde seu maior sucesso internacional, Central do Brasil, há dez anos.Na coletiva, Salles falou da orfandade como uma tragédia brasileira. Na sua análise, ela remonta à colonização portuguesa. O diretor comparou os colonizadores a padrastros. "Portugal nomeou o Brasil, mas logo em seguida pilhou nossas riquezas, a começar pelo pau-brasil." Uma jornalista italiana lembrou-se de Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. É verdade. O filme tem um pé no neo-realismo, o velho movimento que revolucionou o cinema italiano e mundial, após a 2ª Guerra. Sua base é documentária, mas se trata de uma ficção, por mais encravado que esteja no real.Os irmãos seguem, todos, caminhos distintos. Um deles, interpretado por Vinicius de Oliveira, o garoto de Central do Brasil, quer ser craque para fugir à miséria que consome a família. Outro é motoboy - e vai flertar com a criminalidade -, o terceiro é evangélico e o quarto é esse menino que assume a busca do pai, que identifica como motorista de ônibus e por isso ele rouba um desses veículos, episódio que ocorreu na realidade, em São Paulo. O sexto personagem, o mais importante de todos, é a própria cidade.FILMAR A MAIORIAWalter Salles disse que o cinema brasileiro que se tornou conhecido em todo o mundo é muito "social". Filma a periferia, mas de olho naqueles que escolheram a via da violência. Bandidos e traficantes formam uma minoria, explicou o diretor. Ele prefere filmar a maioria - que luta contra a falta de oportunidades e precisa reinventar-se a cada dia, mas não pega em armas para matar nem roubar, e também não perde a esperança.Os aplausos para Linha de Passe indicam que Salles e Daniela Thomas acertaram no alvo. A contribuição do elrenco foi fundamental. Não apenas Vinicius, mas também João Baldasserini, José Geraldo Rodrigos, Kaíque de Jesus Santos e Sandra Corbeloni (a mãe) são ótimos, impregnando cada cena de emoção e de verdade.