Exame do Cremesp reprova 56% dos médicos

Felipe Grandin - O Estado de S.Paulo

Mais da metade dos formandos que fizeram o exame do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) neste ano foi reprovada. Segundo análise do conselho, isso significa que eles não têm os conhecimentos necessários para exercer a profissão, mas se tornarão médicos mesmo assim. O exame é opcional e não impede os recém-formados de obter o registro de médico. Ao todo, 833 estudantes do último ano fizeram a prova e 56% não conseguiram acertar o mínimo, que era de 60% das questões (72 de 120). O índice de reprovação é bem mais alto que os 38% registrados no ano passado e os 31%, no anterior, quando o exame começou a ser aplicado.Segundo o médico Bráulio Luna Filho, que coordenou o exame, a má-formação dos alunos se deve à abertura indiscriminada de faculdades no Estado e está diretamente ligada ao aumento das denúncias contra médicos nos últimos anos. Para ele, a situação pode ser ainda pior, pois, como a prova é opcional, a tendência é que seja feita só pelos melhores alunos.Com exceção de Saúde Pública e Obstetrícia, houve queda nos acertos em todas as áreas do conhecimento médico exigido durante a graduação. Os piores desempenhos neste ano foram em Ginecologia, Clínica Médica, Pediatria e Clínica Cirúrgica, nas quais os estudantes acertaram em média metade das questões."Desde o primeiro exame detectamos deficiências na formação de emergência, o que é lamentável, pois a emergência é a porta de entrada dos médicos mais jovens e também dos pacientes mais graves", diz Luna.BOICOTEDas 31 faculdades de Medicina no Estado, apenas 23 foram representadas no exame, pois as outras ainda não formaram a primeira turma. Das que participaram, oito obtiveram mais de 50% de aprovação. Dessas, só uma é particular.De acordo com Henrique Carlos Gonçalves, presidente do Cremesp, algumas faculdades boicotaram o exame e marcaram atividades obrigatórias no horário da prova. Mesmo assim, isso não justificaria o péssimo resultado, pois o exame segue os parâmetros curriculares do Ministério da Educação (MEC). "As provas são preparadas para alunos médios, não é difícil", afirma.Uma boa medida da abstenção dos alunos neste ano foi a ausência da maioria dos formandos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Dos 110 que se formaram, 14 fizeram a prova, o que pode ter contribuído para diminuir a média, já que a faculdade normalmente tem notas altas. "Ainda assim, outras escolas participaram com grande número de alunos e tiveram resultados ruins", diz Gonçalves.