Ex-diretor do HC que fez denúncias é ameaçado

Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

Portaria no ?DO? diz que Waldemir Rezende será investigado pelo hospital e pode ser demitido

Autor de uma série de denúncias sobre irregularidades no Hospital das Clínicas de São Paulo, o ex-diretor do Instituto Central da unidade Waldemir Rezende é agora alvo de uma investigação do próprio hospital. Na sexta-feira, a superintendência do HC determinou a instauração de sindicância sobre "informações, imagens e denúncias" a respeito do hospital fornecidas por Rezende em outubro deste ano aos principais jornais de São Paulo, entre eles o Estado, além de rádios, televisões, sites e assessorias de Imprensa - além do material do livro Estação Clínicas, lançado pelo ex-diretor.Na publicação e nas entrevistas, o ex-dirigente, que ficou quatro anos no HC, apontou problemas como roubo de materiais, descontrole de estoques, pressões de fornecedores e irregularidades nas entregas de insumos no maior hospital da América Latina, além de medidas que tomou contra os problemas. Mas Rezende não citou nomes de envolvidos. Ao Estado, criticou ainda a limitação do atendimento de casos aparentemente simples, como dor de garganta, nos prontos-socorros do HC. A Assessoria de Imprensa do HC informou ontem que a sindicância irá verificar as supostas irregularidades denunciadas e que, se elas forem verdadeiras, haverá punição aos funcionários responsáveis, ou ao próprio Rezende, caso nada seja comprovado. "Já estava esperando isso, há muito a esclarecer. Até porque continuo atuando no hospital como médico e vejo invariavelmente coisas retrocedendo, como a qualidade de materiais e da limpeza", afirmou Rezende ontem.A portaria, que dá prazo de 60 dias para a sindicância, afirma que o ex-diretor está sujeito à demissão, de acordo com os artigos 251 e 256 do Estatuto do Funcionalismo Estadual e 482 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Os dois primeiros fazem parte de uma lei de 1968 e, em resumo, afirmam a possibilidade de demissão do funcionários público em caso de procedimento irregular de natureza grave. Já o artigo da CLT trata da demissão por justa causa."Ele agiu com sensacionalismo. Como administrador, tinha a obrigação de zelar pelo bem público. E, em hospitais com esse número de pessoas, é muito difícil controlar 100% alguns roubos. O Waldemir quis se promover por ter feito nada mais do que a obrigação", afirmou Giovanni Guido Cerri, membro do conselho deliberativo do hospital, que classificou a gestão de Rezende como "correta". "O livro não tem nada demais, são histórias kafkianas do Brasil", disse Dalton Chamone, também membro do conselho. O QUE DIZ A LEILei do servidor: prevê a demissão em caso de "procedimento irregular de natureza grave". Elaborada em 1968, ápice da ditadura no País, proíbe o funcionário de falar com a imprensa, mas não o impede de publicar trabalhos sobre a organização e eficiência dos serviços onde atua CLT: A Consolidação das Leis do Trabalho diz que o trabalhador pode ser demitido por justa causa, sem direito a determinados benefícios, em casos de mau procedimento e ao lesar a honra do empregador, entre outros casos. A Justiça trabalhista é rigorosa para aceitar essa justificativa