''''Eutanásia é um compromisso ético''''

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

O médico espanhol Marcelo Palacios é um dos mais aguerridos defensores da eutanásia no mundo. A prática é hoje um ato criminoso na maioria dos países. Na semana passada, Palacios veio ao Brasil para uma conferência na Universidade de Brasília. Segundo ele, que preside a Sociedade Internacional de Bioética, as discussões que levariam à legalização da eutanásia estão emperradas por causa da idéia equivocada de que o médico tira a vida do paciente. "Isso leva a uma acusação", explica. "A eutanásia é ajudar um doente terminal, que não tem mais do que meses de vida, a morrer. Para isso, precisa estar passando por um grande sofrimento e fazer o pedido com lucidez ao médico. Não é algo arbitrário. É um compromisso ético entre duas pessoas e merece o máximo respeito." O tema voltou à pauta anteontem, quando o papa Bento XVI atacou novamente a eutanásia dizendo que a "resposta justa" ao sofrimento no final da vida são "cuidado amoroso e medicina paliativa". Questionado sobre a posição da Igreja, Palacios preferiu não polemizar: "Antes de tudo, a sociedade tem de ser plural. Todos somos livres para expressar nossas opiniões". A seguir, trechos da entrevista que deu ao Estado por telefone. O sr. veio ao Brasil para falar sobre a eutanásia... No mundo, dois grandes equívocos emperram as discussões sobre a eutanásia. Em primeiro lugar, há uma confusão terminológica. As pessoas se referem à eutanásia com umas 15 expressões diferentes, como suicídio assistido, cacotanásia, distanásia, eutanásia social. Nada disso é eutanásia. A eutanásia é só uma coisa: ajudar um doente terminal, que não tem mais do que meses de vida, a morrer. Para isso, precisa estar passando por grande sofrimento físico e psíquico e fazer o pedido ao médico com lucidez. O outro equívoco é achar que quem mata o doente é o médico. Isso leva a uma acusação. Não é o médico. Quem o mata é a própria doença. Assim, eutanásia não significa "tirar a vida". Por que o sr. defende a eutanásia? A eutanásia não é algo arbitrário. É um compromisso entre duas pessoas e merece o máximo respeito. Para mim, não há outro compromisso ético que seja tão importante quanto esse, entre o médico e o paciente terminal. Como médico, trabalhei 45 anos em hospital e vi pessoas morrerem de maneiras muito distintas: umas conscientes e outras inconscientes, umas com a família e amigos e outras na absoluta solidão, umas que se foram com gosto, porque estavam fartas de tudo, e outras que achavam a morte um absurdo. Devemos deixar as pessoas decidirem por si mesmas. Uma das grandes discussões hoje é sobre o início da vida, um conceito fundamental em questões polêmicas como a legalização do aborto. Segundo a bioética, quando começa a vida? No Conselho da Europa, a questão foi discutida durante anos. Ficou claro que todos sabemos o que é a vida, mas não chegamos a um consenso sobre quando ela começa. Cada um tem sua perspectiva, desde filosófica e religiosa até biológica, médica e metafísica. É um debate que não terminou e não terminará. Pessoalmente concordo com o entendimento que diz que a vida começa entre o 12º e o 14º dia após a fecundação. Uma questão que já não se discute como antes é a clonagem humana... Já insisti na necessidade de que a nossa lei (espanhola) incorpore a clonagem com fins terapêuticos. Como médico e cidadão, estou mais do lado do paciente do que do embrião (que é descartado após os experimentos). Para mim, todos os métodos que buscam encontrar a cura de doenças são válidos. Como o sr. define a bioética? A bioética é um campo multidisciplinar do conhecimento que estuda avanços científicos e tecnológicos e serve para que os cidadãos formem opinião própria sobre a forma como os avanços afetam nossa vida. Com esse instrumento, podemos corrigir o mau uso da ciência e assegurar que vá em direção ao bem social. Quem é: Marcelo Palacios É médico e preside a Sociedade Internacional de Bioética Foi deputado na Espanha e membro da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa É autor da Convenção sobre os Direitos Humanos e a Biomedicina, em vigor desde 2000 na Espanha