EUA rejeitam acordo sobre a partilha de vacina da gripe

Jamil Chade, GENEBRA - O Estado de S.Paulo

Governos debatem acesso de emergentes a drogas e vírus da doença

Governos de países emergentes foram surpreendidos ontem por um recado da Casa Branca: os Estados Unidos não aceitam os termos do acordo, negociado nos últimos dois anos, sobre a partilha de vírus e vacinas por todos os governos. Washington não quer que o país que desenvolva vacinas ou estude novos vírus tenham obrigações legais em relação à comunidade internacional. Ou seja, querem receber as amostras de vírus de todo o mundo e aceitam que esses produtos não sejam patenteados, mas se recusam a serem obrigados a fornecer os produtos elaborados em seus laboratórios a partir do material genético recebido. O Brasil, representado pelo Itamaraty e pela Fiocruz, pressionou por mudança na postura. Ao fim das negociações, Washington admitiu que poderia flexibilizar sua posição e aceitar o texto, mas insistiu que não aceitaria que o acordo fosse legalmente vinculante. Para o Brasil, isso não é suficiente. Para os emergentes, a postura americana é uma "traição". Segundo um membro da delegação brasileira, a estratégia da Casa Branca foi a de tentar convencer a todos de que a urgência da gripe suína exigia que um acordo fosse fechado nos próximos dias, mesmo com sua posição de rejeitar obrigações legais. A OMS tenta se manter otimista. "Vamos trabalhar para que tenhamos um acordo equilibrado", disse Keiji Fukuda, vice-diretor da entidade. O processo continua até amanhã. A gripe suína também provocou nova guerra de patentes. Ontem, a OMS autorizou a venda de genéricos para tratar a doença. A indiana Cipla conseguiu que seu antiviral fosse registrado e negocia seu fornecimento para México e outros emergentes da América Latina, Oriente Médio e África. Desde a eclosão da gripe, o produto da Roche, Tamiflu, era o único autorizado pela OMS. Para que o México possa importar o remédio, precisa quebrar a patente da Gilead e da Roche. O Tamiflu foi criado nos anos 90 pela Gilead, que era presidida pelo ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld. A Gilead fechou acordo de produção com a suíça Roche. Yusuf Hamied, presidente da Cipla, quer que os governos que comprem seu produto se comprometam a ajudá-lo em casos na Justiça que forem abertos pela Roche. BRASIL A OMS admite que um surto no Brasil teria impacto importante na evolução da gripe suína. "Se um surto surgir no Brasil, tecnicamente não podemos dizer que há uma pandemia, já que essa classificação é apenas dada quando um surto ocorre em duas regiões diferentes do mundo. O Brasil, assim como México e Estados Unidos, está nas Américas. O que temos de ver é se há uma transmissão sustentável em outra região fora das Américas", afirmou Fukuda, que disse não sabe como o vírus vai se comportar no Hemisfério Sul.