EUA inauguram laser para criar uma ''miniestrela''

Carlos Orsi, www.estadao.com.br - O Estado de S.Paulo

Máquina pode aprimorar geração de energia limpa; também será usada na avaliação de arsenal nuclear

Dois meses depois de ter sido certificado como seguro por autoridades federais americanas, o maior laser do mundo - na verdade, uma instalação composta por 192 feixes independentes, calibrados para atingir um mesmo alvo no mesmo instante - será inaugurado hoje. Veja gráfico explicando a reação de fusão do NIF Em fevereiro de 2010, os raios gerados pelo laser da National Ignition Facility (NIF, na sigla em inglês, ou Instalação Nacional de Ignição) serão disparados na direção de uma cápsula com hidrogênio, na esperança de produzir uma fusão atômica que, acreditam os responsáveis pelo projeto, liberará muito mais energia que a usada para ativar os raios. Por mais de meio século, os físicos sonham em criar pequenas estrelas que inaugurariam uma era de ciência de ponta e energia barata. A NIF pode ser o fim dessa busca. A fusão nuclear é o modo de geração de energia que ocorre no interior das estrelas, incluindo o Sol, e nas bombas termonucleares de hidrogênio. No caso da NIF, a fusão deve acontecer quando os raios laser aquecerem uma pequena cápsula de ouro, chamado hohlraum, carregada com hidrogênio. Quente, a cápsula passará a emitir raios X que banharão a cápsula, comprimindo o combustível até uma densidade 20 vezes maior que a do chumbo, gerando uma temperatura de 100 milhões de graus Celsius. Como resultado, os átomos de isótopos pesados de hidrogênio - deutério e trítio - fundem-se, produzindo hélio. O hélio gerado, no entanto, tem massa inferior à do hidrogênio que o originou. A diferença é convertida em energia, que deverá ser de 10 a 100 vezes maior que a consumida na ativação dos lasers. Todo o processo deve se consumar em 20 bilionésimos de segundo, com margem mínima para erro: a fim de causar o colapso do hidrogênio, os lasers têm de atingir o hohlraum com simultaneidade quase absoluta, numa coordenação da ordem de trilionésimos de segundo. Além de tomar parte no experimento de fusão nuclear, os 192 lasers serão usados na realização de outros experimentos científicos, criando pressões e temperaturas que existem em estrelas, no núcleo de planetas gigantes e durante explosões nucleares. Parte do mandado definido para a NIF pelo Congresso americano inclui a realização de cálculos e experimentos para avaliar o estado do arsenal nuclear do país. PROMESSAS O uso da fusão nuclear para gerar energia de forma controlada - e não destrutiva, como no caso das armas nucleares - é perseguido há décadas. No sul da França, um consórcio internacional (do qual os EUA também fazem parte) constrói o Iter, um reator que usará campos magnéticos para aquecer e confinar o hidrogênio. O desafio do Iter será produzir pelo menos dez vezes mais energia que a consumida pelo reator. A fusão nuclear, caso se mostre viável, seria uma alternativa "limpa" tanto aos combustíveis fósseis quanto à energia nuclear convencional, obtida por meio da fissão (quebra) de átomos. Além de gerar muito menos lixo radioativo, as reações de fusão não requerem tecnologias que também podem ter aplicação bélica, como o enriquecimento de urânio, nem geram subprodutos como o plutônio, produzido em alguns reatores de fissão, que pode ser usado em armas atômicas. Os custos dos projetos de fusão, no entanto, são altos. A NIF, que usa uma área do tamanho de um estádio de futebol para focar seus 192 lasers num alvo de meio milímetro, no centro de uma câmara de vácuo de 10 metros, tem um custo de US$ 3,5 bilhões (R$ 7 bilhões). O Iter, por sua vez, ocupa uma área de 180 hectares, dos quais 42 serão cobertos por edifícios. O reator terá 57 metros de altura e o custo total de construção e operação é estimado em 10 bilhões (cerca de R$ 28 bilhões). COM THE NEW YORK TIMES