''Eu conto tudo que fica dentro da minha cabeça''

- O Estado de S.Paulo

Nem sempre é fácil romper o silêncio. Antonia Carmem de Souza, de 25 anos, chegou à clínica indicada por uma amiga. Casada, mãe de um menio de 1 ano, primeiro procurou um neurologista achando que tinha "um problema na cabeça". Descobriu que as crises de ansiedade e choro não se resolviam com remédio. Na primeira sessão, ficou assustada quando soube que não eram sessões individuais. Ficou com medo, mas resolveu encarar.Hoje, não perde uma sessão. "Aqui eu falo de coisas que antes eu não conseguia falar. Estou menos triste. Fico aliviada de ver que o que eu sinto, outras pessoas também sentem", diz.Há casos mais difíceis. Aderito Moura da Silva, paraibano de 44 anos, conheceu o Digaí-Maré quando foi levar o sobrinho, que estava dando problemas na escola. Foi explicar para o "doutor" Rodrigo Lyra Carvalho a tragédia que atingiu a família há dois anos. Sua cunhada foi assassinada pelo marido. Deixou quatro filhos com idades que variam de 7 a 14 anos. Aderito, pai de três filhos, teve de assumir os sobrinhos e a culpa de não ter feito nada para ajudar a cunhada. "Eu sonho com o desgraçado do assassino. Ele batia nela. Eu tinha que ter tido coragem de acabar com a vida dele, ou de chamar a polícia, ou de pedir ajuda ao chefe da favela (traficante) para acabar com ele antes que ele matasse ela", conta. Aderito ainda não se conformou. "Ninguém resolveu o problema da minha cunhada e eu fiquei com este desespero dentro de mim."Aderito tem pressão alta, problemas cardíacos e ainda se recupera de uma queda de 4 metros de altura no trabalho. A psiquiatra do posto de saúde mandou que ele tomasse seis comprimidos de Diazepan por dia para conseguir dormir. Nem sempre consegue. As sessões com o psicanalista já duram um ano. "Eu conto tudo que fica dentro da minha cabeça. Saio daqui com menos peso no peito."