Eternamente gripado

Lola Felix - O Estado de S.Paulo

Doença tem alta incidência entre crianças e adolescentes paulistanos, mas pode ser tratada

A criança está sempre gripada, com o nariz escorrendo, reclama de dor de cabeça e espirra quando o gato de estimação chega perto? Pode ser rinite alérgica. A doença, que geralmente se manifesta na infância, merece atenção porque piora a qualidade de vida do paciente - sobretudo no inverno - e tende a evoluir para um quadro de asma.Dados de estudos epidemiológicos mostram que alguém que sofre de rinite tem quatro vezes mais chances de ter asma também. 'Noventa por cento das pessoas que têm asma têm rinite', diz o pneumologista Rafael Stelmach, presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia.Aqui na Capital, segundo o Estudo Internacional de Asma e Alergias na Infância (Isaac), cerca de 29% das crianças de 6 a 7 anos e dos adolescentes de 13 a 14 apresentam sintomas de rinite. No levantamento, as formas mais graves do problema apareceram em sua maioria na região sudeste da Cidade. Uma das possíveis explicações para isto, segundo pneumologistas, é a poluição mais disseminada. O critério usado pelos pesquisadores para definir se o jovem sofria da doença foi detectar se ele havia tido algum episódio de coriza, espirros ou entupimento nasal nos últimos 12 meses.O Isaac avaliou a prevalência de rinite, asma e eczema em 56 países. No Brasil, enviou mais de 80 mil questionários a adolescentes com idades entre 13 e 14 anos e aos pais de crianças de 6 a 7, residentes em 20 cidades das cinco regiões do País.Segundo Stelmach, os números brasileiros são parecidos com os de países de primeiro mundo. Mas isso não deve ser motivo de orgulho. 'O crescimento da incidência destas doenças é conseqüência das casas fechadas, da permanência em ambientes com ar-condicionado, carpete e cortinas', diz o pneumologista. Todos estes fatores levam ao desvio dos mecanismos de defesa do organismo, que em vez de proteger, acabam deixando o corpo mais sujeito a alergias. A rinite e a asma ainda implicam num custo social alto. 'A mãe tem de deixar de trabalhar para cuidar da criança', diz o pneumologista Dirceu Solé, coordenador do Isaac no Brasil. Alguns casos podem ter remissão, mas Solé acredita que 'uma vez asmático, sempre asmático'.O engenheiro ambiental Felipe Gimenes, de 23 anos, abandonou o tratamento da rinite que descobriu ter aos 10 anos de idade, mas virou escravo do papel higiênico para o resto da vida. Nos dias mais úmidos e frios, as crises pioram e ele fica gripado por tempo 'indeterminado'. Gimenes até tentou insistir no tratamento, mas como era feito com injeções semanais, acabou desistindo. 'Agora, durmo com um rolo de papel ao lado da cama', diz ele, que é alérgico a pó, pêlos e fungos.   Tratamento e prevenção   Solé aconselha duas linhas de tratamento para a doença, que ele considera relativamente fácil de ser controlada. A primeira envolve o controle do ambiente, para diminuir a exposição do paciente a agentes alérgenos. Felipe, por exemplo, não dorme com cobertores felpudos e só deixa os bichinhos de estimação fora de casa. Fumantes devem evitar acender o cigarro dentro de casa, pelo bem da criançada. O tratamento medicamentoso, por sua vez, controla os sintomas da rinite e a inflamação da mucosa nasal. Podem ser usados anti-histamínicos (medicamentos para alergia respiratória), descongestionantes, corticosteróides intranasais, entre outros.Prevenção também pode funcionar contra as alergias respiratórias. Como filhos de pais alérgicos têm grandes chances de apresentar algum tipo de alergia, Solé recomenda o aleitamento materno exclusivo por tempo prolongado. Segundo a Unicef Brasil, bebês que são amamentados no seio das mães ficam menos doentes e se tornam mais resistentes a doenças.