Estranhos no ninho

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

Mudar de escola pode ser uma farra ou uma tragédia... Tudo vai depender da acolhida dada aos novos alunos

Só quem já teve de trocar de escola sabe como é difícil de se adaptar à situação, dos professores e metodologia de ensino diferentes aos novos colegas. Enquanto, no caso dos pequenos, o grande drama é ficar longe dos pais em um ambiente inóspito, para os maiores, a dificuldade maior é o entrosamento. "Imagine qual é o impacto para um jovem de 14 anos mudar de escola 14 vezes? Fica impossível criar vínculos." A pedagoga Maria Irene Maluf, à frente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, cita um caso real de atendimento, no qual o aluno em questão passou pelas mais diferentes escolas. "Além da dificuldade de entrosamento, esse adolescente tinha conteúdo de terceira série do Ensino Fundamental", observa, lembrando aos pais o peso de tais transições.Explica que as ansiedades em relação ao novo mudam de acordo com a idade. Quando a criança vai para a escola pela primeira vez, se defronta com um mundo desconhecido, podendo se sentir abandonada:- Os pais devem conversar e transmitir confiança, passando idéias positivas, como a oportunidade de encontrar novos amigos, e devem, principalmente, frisar que eles conhecem aquelas pessoas que vão acompanhá-la. Em geral, as escolas permitem que os familiares permaneçam no local até a criança se acostumar. Para evitar uma sensação ruim de "estréia", não é indicado levá-la doente ou com febre, nem quando o pai ou a mãe estejam doentes. Uma dica para os pequenos calouros angariarem simpatia e popularidade entre os colegas é levar balinhas na lancheira e distribuir na hora do recreio. "É sucesso na certa." Na faixa de 5 a 10 anos, a criança já tem referencial sobre o ambiente escolar. O problema é a socialização e, mais uma vez, as balinhas (ou figurinhas) podem ser salvadoras da pátria para quebrar o gelo e estabelecer vínculos. - No caso dos adolescentes, em geral, são eles quem escolhem a nova escola, salvo exceções. Nessa idade, possuem recursos internos para lidar com as mudanças e uma vontade enorme de se adaptar ao grupo. O problema é quando há um início de relacionamento ruim. Como um menino que tinha um apelido que lhe fora dado na escola antiga e, mesmo quando mudou para o outro extremo da cidade, os novos colegas descobriram o tal apelido e faziam gozações. Em situações como essas, cabe à escola intervir de forma que o aluno se sinta aceito e, principalmente, respeitadoA educadora aconselha aos pais que indaguem se existe no colégio uma proposta no sentido de receber os alunos que chegam, seja qual for o motivo da mudança - distância entre casa e escola, divergências sobre a proposta pedagógica ou algum conflito. AcolhidaNo Colégio Albert Sabin, o programa Prazer em Conhecer, em vigor há cinco anos, dá as boas-vindas aos novos alunos e suas famílias. Segundo a diretora pedagógica Giselle Magnossão, o projeto aproxima alunos, pais e escola, a começar pelos sábados interativos. "As famílias vêm até a escola, conhecem o espaço, a direção, a proposta de ensino, e os futuros alunos participam de uma atividade pedagógica para conhecermos um pouco mais de sua personalidade, habilidades e competências", explica. Depois desse encontro, as ações junto ao aluno recém-chegado passam a depender da idade. - No caso dos pequenos do maternal, além do acompanhamento individualizado, os pais permanecem na escola por uma ou duas horas e, depois, vão saindo de cena gradativamente até a criança se sentir segura. Até a quarta série, os profissionais estão sempre bem próximos e presentes. Da quinta em diante, os novos alunos ganham tutores, estudantes que se oferecem voluntariamente para acompanhar e apresentar aos colegas a rotina da escola, facilitando a adaptação. No Ensino Médio, lembra, é necessário ter paciência e habilidade redobradas, porque o aluno já criou vínculos na antiga escola. E conclui: "de um modo geral, as dificuldades inerentes ao novo existem, mas não são nenhum bicho-de-sete-cabeças e fazem parte do caminhar."A fonoaudióloga Elisa Silva, mãe de Luciana, de 10 anos, e de Marilia, de 9, matriculou as meninas este ano no Sabin. A troca de escola se deu por dois motivos: a distância e o trânsito pesado do trajeto e problemas de aprendizagem da caçula.- Quando fomos conhecer o colégio, o tratamento foi tão especial que pensei que só podia ser marketing. Mas depois vi que a acolhida que tivemos funciona na prática, desde o programa de alunos tutores ao pronto atendimento dos coordenadores quando solicitados. No Colégio Brasília, os colegas são os tutores dos alunos novos. "A inspiração veio da Escola da Ponte, em Portugal, dirigida pelo educador José Pacheco, conhecida instituição onde não tem séries e as crianças grandes e pequenas estudam juntas", comenta Elena de Cássia Alves Ferreira, coordenadora geral. A experiência começou no Ensino Médio e vai se estender para as outras séries. "Quanto mais velho o aluno, mais difícil é fazer amigos. Na Educação Infantil, a socialização é rápida."O aluno tutor, uma espécie de líder do bem, é escolhido não pelas notas mas também pela sua popularidade, influência positiva e capacidade de entrosar o aluno que se sente retraído ou deslocado. O tutor entra em ação já nos primeiros dias de aula, sem se identificar inicialmente. A revelação só ocorre quando os adotados estão afinados com a turma. Alguns alunos se saem muito bem no desafio de ajudar os novos colegas. Em geral, são jovens solidários, que costumam fazer parte de trabalhos sociais. É o caso da aluna tutora Tamires Casar, de 17 anos, que acaba de concluir o terceiro ano do Ensino Médio. Supercomunicativa, conta que sempre faz amizade fácil e que "fica feliz só de ver as pessoas felizes". Com talento especial para detectar o jeito dos novatos - alguns são quietinhos, outros são tímidos -, diz que, aos 3 anos, gostava de ajudar as crianças com necessidades especiais de sua escola. Apesar de o foco ser os alunos novos, Tamires ajudou um colega que estudava desde pequeno no colégio, presa fácil de provocações dos colegas. "Ele ficava isolado o tempo todo, gostava de jogos agressivos e todos zoavam. Quando caí na classe dele, me aproximei e também conscientizei a classe, sugerindo um fórum sobre "bullying" (o ato de fazer gozações e brincadeiras agressivas com colegas). Todos se desculparam e hoje somos grandes amigos."Com a colega Natália Correia Quinteiro, a história foi diferente. "Ela sempre estudou no mesmo colégio e depois mudou-se para Brasília. Não estudava, enfim, jogou tudo para o alto. Me propus a estudar com ela e também a ser um ombro amigo. Era o que mais precisava para desabafar! Hoje ela é minha melhor amiga."OnlineA psicopedagoga Claudia Tricate, dos colégios Magno e Mágico de Oz, observa que, muitas vezes, os pais são os mais ansiosos quando levam os pequenos pela primeira vez à escola. "O momento da separação deve ser abreviado, sem despedidas dramáticas", pondera. A adaptação nos primeiros dias é feita de maneira gradual. "Os pais passam um período com a criança, participam com ela de algumas atividades. Se ela chorar, sai mais cedo. Caso contrário, fica o dia inteiro. Vai depender do comportamento de cada criança."A escola disponibiliza em seu site, o Click Adaptação, uma área especial, diariamente atualizada, com fotos para que os pais possam acompanhar o dia-a-dia das crianças. No caso dos bebês, o acompanhamento pode ser feito com imagens on-line do berçário. Também na Escola Móbile existe uma preocupação em acolher os alunos novos. Segundo Maria dos Remédios F. Cardoso, coordenadora do segundo ano do Ensino Fundamental, as ações atendem às necessidades de cada faixa etária. "No caso de crianças de 2 anos, por exemplo, a sala é organizada para que se sintam à vontade e quatro profissionais, entre professores, assistentes e berçarista, ajudam na fase de adaptação. Um adulto, que pode ser pai, avó, mãe ou babá, fica o tempo necessário e vai se afastando aos poucos." Uma fase delicada é aos 7 anos, no ingresso à primeira série, passagem para o mundo adulto. No caso, a escola promove vivências aos sábados, envolvendo pais, filhos, educadores e demais profissionais que integram a equipe. "Esses encontros amenizam a ansiedade de ambas as partes, tanto do lado das crianças como do dos pais." Uma medida que rende bons frutos é agrupar três alunos novos na mesma classe, de forma que um apóie o outro. Entre outras estratégias, no caso dos maiores, os alunos antigos fazem pequenas palestras e dão dicas sobre a rotina escolar, além de reuniões com os pais. "No Ensino Médio, os alunos do segundo ano recebem os do primeiro ano, dando as boas-vindas e passando dicas de trabalhos."