''''Estes dois anos deverão ser de grandes embates''''

Lígia Formenti - O Estado de S.Paulo

Reconduzido ao cargo, professor diz que, apesar das polêmicas, aceitou ficar para não deixar o serviço incompleto

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou ontem, na primeira reunião plenária deste ano, uma resolução com novas regras para liberação comercial de organismos geneticamente modificados. Foi uma votação unânime, raridade nos últimos anos da entidade. "Fico contente com o consenso, espero que ele se mantenha daqui para frente", afirmou o presidente da CTNBio, Walter Colli. Professor da Universidade de São Paulo (USP), Colli foi reconduzido ao cargo de presidente da comissão. Na visão dele, porém, o consenso não será a regra. "Minha previsão é de dois anos de embates." Algo bem diferente de quando assumiu o primeiro mandato. Na época, ele estava convicto de que ambientalistas passariam a gostar dele. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.Quais os benefícios da nova regulamentação?Agora temos regras mais claras. Foi um processo longo para a construção deste texto. Com ele, as empresas, ao entrar com pedido de liberação comercial, já saberão exatamente os documentos que têm de mandar para ser analisado, quais critérios serão avaliados.Mas três espécies de milho já foram liberadas no ano passado. Não houve regras para a análise? Nós seguimos instruções normativas que existiam. As regras estavam lá. Mas agora são mais claras.O senhor acha que o consenso pode se repetir em outras votações? Difícil. Há ainda, por parte de alguns setores, muita hostilidade diante dos transgênicos. Estes dois anos deverão ser de grandes embates. Isso só mudaria se houvesse maior flexibilidade de todos os lados. Todos deveriam votar de acordo com a ciência, e não com preconceito em relação a produtos geneticamente modificados.Ambientalistas afirmam que o senhor também é guiado pelo preconceito. Seria sempre a favor dos transgênicos.Não tenho posição prévia. Guio meu voto com olho em tabelas, gráficos, estudos científicos e no que ocorreu no passado recente. Atuo com convicção, formada depois da análise de dados científicos. Minha personalidade não admite injustiças. Fui perseguido pelas ONGs, sou constantemente desrespeitado.O sr. não é a favorável a transgênicos?Não sou contra nem a favor. Em teoria, transgênicos não fazem mal. Mas eles somente podem ser aprovados depois de se avaliar possíveis riscos para saúde ou ambiente.Se o sr. foi hostilizado, porque aceitou continuar no cargo?Tem pauta pela frente e quero participar. Não quero deixar o serviço incompleto, quero contribuir. Vai haver resistência, polêmica, mas não gostaria que interpretações facciosas prevalecessem.O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, disse que a Anvisa só concederá registro para produtos transgênicos que comprovadamente não sejam tóxicos ou causem alergias. O sr. acha isso correto? Não. A lei de biossegurança já diz que a CTNBio é a entidade que avalia a segurança dos transgênicos. Isso demonstra certa nostalgia quando Ibama e Anvisa podiam vetar a liberação comercial.