Especialista teria favorecido paciente particular

Talita Figueiredo, RIO - O Estado de S.Paulo

Médico renomado, Joaquim Ribeiro Filho é acusado de furar fila para aproveitar fígado

No Dia Nacional do Doador de Órgãos, comemorado ontem, uma polêmica sobre um transplante de fígado realizado no Rio veio à tona. O especialista na área, chefe de duas equipes que operam no Rio e ex-coordenador do Rio-Transplante, Joaquim Ribeiro Filho, é acusado pela Secretaria Estadual de Saúde de priorizar um paciente da rede privada, em terceiro na fila, em detrimento de um da rede pública, no segundo lugar. Em entrevista ao Estado, o médico afirmou estar sofrendo retaliação por ter denunciado uma suposta queda no número de transplantes no Estado desde a posse do atual secretário, Sérgio Côrtes, em janeiro. Segundo o médico, que era coordenador do Rio-Transplante, a média mensal teria caído de 12 a 13, em 2006, para 2 a 3 neste ano. A secretaria informou que, no ano passado, foram realizados 80 transplantes de fígado e, até julho deste ano, 38. O Ministério Público Federal instaurou inquérito criminal para investigar o caso, que começou em 17 de julho com a oferta de um fígado por um hospital de Minas. Segundo o subsecretário Jurídico da Secretaria Estadual de Saúde, Pedro Henrique Palheiro, o órgão foi oferecido ao Hospital Geral de Bonsucesso, que não tinha recursos para buscá-lo. O segundo da fila era um paciente do Hospital Clementino Fraga Filho, da UFRJ, onde Ribeiro opera. "Ele disse que o hospital faria a coleta do fígado para um paciente X. O problema é que ele fez o transplante em um paciente Y, de um hospital particular, onde também opera", diz Palheiro. Em sua defesa, Ribeiro Filho afirma que o hospital do Fundão, como é conhecida a unidade de saúde da UFRJ, também não tinha condições de buscar o órgão em menos de 14 horas, o que deixaria o fígado inutilizado. "Por isso, passei para o terceiro da fila, que era da Clínica São Vicente, onde também opero. A família tinha a possibilidade de pagar um jatinho para buscar", afirma. Palheiro criticou o fato de o médico só ter avisado a central de transplantes da troca dois dias depois. O médico e sua equipe foram suspensos. Ribeiro Filho entrou com uma ação e obteve liminar para retornar ao trabalho ontem. Ribeiro Filho é considerado referência profissional em sua área. Implantou o sistema de transplantes de fígado e rim no Estado e formou dezenas de cirurgiões. CAMPANHA O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, lançou ontem em Salvador (BA) campanha de incentivo à doação de órgãos. Ela será veiculada em TV, rádio, internet e salas de cinema e tem como objetivo elevar em 20% ao ano, nos próximos dois anos, o número de transplantes realizados no País. Em 2006 foram feitos 15.675 transplantes. Neste ano, entre janeiro e junho, foram 7.661. Segundo dados do ministério, 71.152 pessoas aguardam transplante no Brasil. COLABOROU TIAGO DÉCIMO