Envelhecer sem medo

- O Estado de S.Paulo

A longevidade depende mais dos nossos hábitos do que da genética

Todo velhinho espirituoso conhece aquela máxima que diz que "envelhecer é ruim, mas é bem melhor do que a outra opção...". Na melhor das hipóteses, todos envelheceremos. Por que não fazê-lo da melhor maneira possível?Ajuda literária para a aventura não falta. Nos últimos meses, dezenas de lançamentos editoriais apostaram em um público atual de 17 milhões de idosos no Brasil, sem contar os jovens que já se preocupam com o futuro. Geriatras e gerontólogos acreditam que o mercado para esses livros é promissor.Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE), em 2025, serão 30 milhões de idosos no Brasil, ou quase 13% da população. A expectativa de vida da população também aumentou. Espera-se que um bebê nascido no País, nos dias de hoje, viva em média 71,9 anos. Se ele nascer no estado de São Paulo, essa média aumenta para 73,4 anos. Nem livros, nem cremes anti-rugas, nem vitaminas podem agir contra o tempo. Daí a descrença de muitos especialistas na Medicina Antienvelhecimento. "As pessoas estão sendo atraídas por fórmulas mágicas, que têm como objetivo enriquecer seus criadores", alerta o geriatra Francisco de Brito, chefe do Centro de Envelhecimento Saudável do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Algumas dicas contidas nesses livros, no entanto, podem ser muito bem-vindas, especialmente as que propõem mudanças no estilo de vida. Geriatra da Unifesp, Clineu Almada acredita que os fatores ambientais respondem por 75% do nosso envelhecimento - o resto é tarefa para a genética. Exercício físico, alimentação adequada, bom humor, filtro solar... tudo isso influi mais do que o DNA dos pais. O pai de Antonio Gonçalves Frediani, de 70 anos, por exemplo, faleceu aos 52 anos, de câncer. "Ele fumava até três maços de cigarro por dia e acho que por isso, nunca suportei tabaco", diz o aposentado, que não bebe, não ingere gorduras em excesso, trabalha até hoje e pratica atividade física desde criança, ininterruptamente. Colega do aposentado Adolfo Xavier Barros, 70 anos, no time Enxuga Grama, do bairro do Jaçanã, Frediani rejeita a relação entre terceira idade e decadência física e mental. Para a psicóloga e gerontóloga Anita Liberalesso Neri, da Unicamp, a idéia que liga velhice à doença vem mudando nas últimas décadas. "Hoje as pessoas envelhecem melhor", avalia a pesquisadora. Na opinião de Anita, esse progresso é resultado de investimentos na área científica e social. Mesmo assim, ainda há muito desconforto com o passar dos anos. "A velhice prenuncia a morte. E é esta que muita gente ainda rejeita", acredita a gerontóloga. Longevidade com qualidadeNão existe um senso comum sobre o que é envelhecer bem. Para uns, é manter um rosto esticado; para outros, é apresentar taxas glicêmicas elogiáveis. Para o geriatra e gerontólogo Paulo Canineu, 57 anos, diretor científico do Hiléa - centro de vivência e desenvolvimento para idosos -, feliz é a pessoa que encontra um sentido na vida. "E, quanto antes, melhor", diz Canineu.De acordo com o geriatra Clineu Almada, amadurecer com qualidade, para a ciência, é amadurecer com uma boa capacidade intelectual. Além disso, espera-se que o indivíduo possa ser independente funcionalmente e que tenha autonomia para decidir sobre sua vida. Todos os personagens entrevistados para a matéria destacaram o estudo e o trabalho - mesmo após a aposentadoria - como importantes fatores para a manutenção da qualidade de vida. Depois da aposentadoria, que chegou em 1991, Antonio Frediani, de 70 anos, ajuda o filho a administrar um comércio. Eduarda Almeida, de 75 anos, já freqüentou uma faculdade para a terceira idade. De acordo com o geriatra Clineu Almada, uma alta avaliação subjetiva de si mesmo é algo que só tende a favorecer a saúde do indivíduo. "A maneira de encarar a vida é importante sim", diz o especialista.A pesquisa de opinião pública Idosos no Brasil, vivências, desafios e expectativas na 3ª idade - realizada pelo Sesc em parceria com a Fundação Perseu Abramo e divulgada no começo de maio - revelou que 69% das pessoas com mais de 60 anos de idade se sente bem com a idade que têm. Contraditoriamente, 88% dos idosos entrevistados ainda associavam a terceira idade à aspectos negativos, como doença e desânimo. "Existem muitas contradições quando se pensa sobre a velhice", constata a gerontóloga Anita Neri. Segundo a pesquisadora, os estudos não mostram, de maneira concreta e linear, que existe um declínio nas capacidades humanas à medida que o tempo passa. Mesmo assim, o idoso é deixado de lado. Anita acredita que isso aconteça mais por critérios econômicos. "Os jovens, em certo momento, precisarão ser absorvidos pelo mercado de trabalho. E aí, os idosos serão rejeitados", explica a gerontóloga. Quando se é velho?Talvez o conceito mais irredutível de velhice seja aquele dado pelos órgãos de saúde ou pelos institutos de pesquisa. Aqui no Brasil, são considerados idosos pessoas acima de 60 anos de idade.A Medicina Antienvelhecimento trabalha com os conceitos de idade cronológica e idade biológica. "A idade biológica pode ser menor do que a cronológica", diz o cirurgião plástico Kose Horibe, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Antienvelhecimento (SBMAE). Horibe acredita que, se um indivíduo apresenta uma idade biológica menor, a cronológica poderá não importar tanto. A psicoterapeuta Eliana Guimarães Pyhn , autora do livro Idades Biológicas (Editora Senac, R$ 63), acredita muito nesse conceito. "Uma pessoa de 30 anos pode ter o organismo mais envelhecido do que o de uma pessoa de 60 anos", diz Eliana. Para alguns geriatras, como Paulo Canineu, a senescência e fragilidade freqüentemente andam juntas. Por isso, é importante estar atento aos sinais do corpo. Se a capacidade de recuperação começa a ficar mais lenta, pode ser sinal de que o envelhecimento chegou. Livre arbítrioSe envelhecer é a melhor das hipóteses, bom é envelhecer com qualidade de vida. Especialistas são unânimes ao apontar, pelo menos, dois fatores que devem fazer parte da vida de qualquer velhinho saudável: boa alimentação e atividade física constante.Não precisa ter um time de futebol como os aposentador Adolfo Xavier e Antonio Frediani, mas é bom tirar a ferrugem dos ossos regularmente. "A atividade física melhora não só a capacidade aeróbica, mas também a massa muscular, que diminui com o tempo", diz o geriatra Clineu Almada. Para as refeições, o critério permanece o mesmo para um senhor de 70 anos e para o neto de 18: o melhor é comer pequenas porções, várias vezes ao dia. Uma boa visão sobre a vida faz bem para a saúde, mas cada um tem a sua. "A pessoa deve resolver suas questões individuais. Rugas podem ser só um problema estético para alguns, mas para outros, elas realmente incomodam", defende Almada.Essa fase pode também ser sinônimo de amadurecimento, vida plena, paz, conquistas e coragem para encarar a morte. Com essa visão mais positiva, qualquer um pode descobrir que o pior da velhice é, justamente, quando ela chega ao fim.