Ensino distante da realidade desmotiva jovem

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Estudo mostra que, ao ingressar no médio, 43% queriam ser preparados para o trabalho, mas se decepcionam

Decepcionados, 43% dos estudantes de São Paulo afirmam que esperavam ser preparados para o mercado de trabalho ao ingressarem no ensino médio. Para eles, a escola deveria ter como prioridade oferecer um aprendizado com foco na inserção profissional. Os resultados - de uma pesquisa feita pela organização não-governamental Ação Educativa e obtidos com exclusividade pelo Estado - coincidem com o atual debate em torno desses três últimos anos da educação básica, etapa do ensino que vive uma crise de identidade, com aumento da evasão e repetência no País. Enquanto educadores, intelectuais e o próprio Ministério da Educação discutem o que fazer com o currículo nessa etapa e as maneiras de atrair e reter os jovens, o quadro traçado pelos alunos pede uma escola mais próxima de sua realidade, mais disposta a motivá-los para o ensino e capaz de ajudá-los a criar projetos individuais para o futuro, seja indo diretamente para o trabalho ou prosseguindo os estudos numa universidade. Na hora em que recebem a oportunidade de se pronunciar livremente sobre qual escola gostariam de ter, aparecem construções como "o ensino médio não formaria profissionalmente, mas sim promoveria aprendizados básicos para o ingresso no mundo do trabalho" ou "a escola precisa ajudar os alunos a expressarem e colocarem em prática suas idéias". Há também pedidos para que os professores se aproximem mais da classe e dos alunos. "Qual é o ensino médio que a gente quer? Para quê ele serve? Ele é uma etapa estratégica para o acesso ao direito à educação e está sem identidade, sem um propósito, sendo dado apenas como continuidade do ensino fundamental", afirma Ana Paula Corti, coordenadora da pesquisa na Ação Educativa. "Além disso, há no momento discussões pelo País embasadas em apostas e dados, mas que em geral não consideram a opinião e os anseios das pessoas que estão na escola", complementa. ATRAÇÃO Ela chama a atenção para outro fator que diferencia o ensino médio do fundamental: enquanto a educação da 1ª a 8ª série é obrigatória pela Constituição, e tanto governos quanto famílias podem ser punidos caso não ofereçam vagas ou não matriculem as crianças, no ensino médio a escolha é livre. "Se a escola não se mostrar mais interessante para o aluno, se ele achar que não vai acrescentar nada para a vida dele, ele não se matricula e pára de estudar." Não por menos, em todo o País, onde apenas cerca de 45% dos adolescentes entre 15 e 17 anos estão no ensino médio, a evasão tem aumentado nos últimos anos. Somente no Estado de São Paulo, de 2004 a 2007, houve uma redução de 327 mil estudantes matriculados. O que não quer dizer, para a professora Valéria Leão, da Escola Estadual Jardim Planalto, no Jardim Ângela (zona sul), que os alunos menosprezem a educação - a questão é que eles menosprezam a educação que está sendo oferecida, afirma. Para Valéria, a capacidade dos estudantes de se pronunciarem e dizerem o que pensam e o que querem para eles mesmos muitas vezes é subestimada, afastando ainda mais os jovens da instituição escolar. "Quando você dá a palavra a eles, fica evidente o descompasso entre a escola e as necessidades que trazem", diz. "Percebemos que eles têm uma capacidade de crítica e vontade de se inserir na comunidade onde estão. Quando não encontram isso, perdem o interesse e caem mesmo no trabalho, arrumando um emprego qualquer." A pesquisa ouviu 880 alunos de várias escolas da rede estadual de São Paulo para saber o que eles esperavam e o que encontraram no ensino médio. Em seguida, com um grupo menor, foram organizados alguns encontros para debater propostas de melhoria, que resultaram em um relatório feito pelos alunos. Esse documento será entregue na próxima semana para a Secretaria de Estado da Educação. DESENCONTRO Além da expectativa de receber uma preparação para o mundo do trabalho demonstrada pela maior parte dos entrevistados, outros 25% dos alunos disseram esperar do ensino médio a capacidade de saírem aptos a prestar um vestibular. Além disso, 8% deles afirmaram apenas esperar conseguir um diploma, demonstrando pouco interesse no aprendizado. Seja como for, essa expectativa também não está sendo cumprida. Segundo avaliação aplicada pela própria secretaria, mais de 70% dos alunos terminam o ensino médio sem saber operações matemáticas básicas, como transformar uma unidade de medida de metro para centímetro ou resolver problemas de subtração de números decimais menores que dez. "Os estudantes nessa idade não são ingênuos em hipótese alguma", enfatiza Maria Sylvia Simões Bueno, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília. Isso quer dizer, segundo ela, que eles já trabalham e sabem que precisam estar preparados para a etapa seguinte. Desse modo, é necessário associar a realidade dos alunos com os conteúdos aprendidos em sala de aula, o que não quer dizer, segundo a professora, abandonar a matemática, a física e a química. "Pelo contrário, é ensinar esses conteúdos mostrando como estão associados à vida prática de todos nós." Outro ponto que ela define é a distinção entre preparar para o trabalho e oferecer um curso profissionalizante. "Não é somente oferecer um curso técnico, que pode ser de uma área que ele não tenha interesse, e aí continuamos, novamente, distantes dos jovens", afirma.