Empresa abre espaço para ativo da mata atlântica

Andrea Vialli - O Estado de S.Paulo

Extrato certificado da candeia atrai atenção da indústria de cosméticos

A candeia, árvore nativa da mata atlântica, cresce em abundância da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, até o sul da Bahia. O óleo essencial da candeia é rico em alfa-bisabolol, um anti-inflamatório natural que tem ampla aceitação na indústria farmacêutica e de cosméticos - o que já estava levando a práticas predatórias de exploração da espécie. Foi para tentar reverter esse quadro que os sócios Eduardo Roxo, biólogo, e Cristina Saiani, ex-executiva da área de marketing, criaram a Atina - Ativos Naturais S.A., para "produzir ativos naturais com rastreabilidade e sustentabilidade", nas palavras de Cristina. O ponto de partida para valorizar a matéria-prima da candeia e não associá-la ao uso descontrolado dos recursos florestais foi buscar a certificação FSC, uma das mais conhecidas no mercado internacional, que atesta que a matéria-prima vem de áreas de manejo. "Foi a primeira vez que o selo FSC foi emitido no País para um produto de origem florestal não amazônica", diz Roxo, que também buscou o selo de orgânicos Ecocert, para facilitar a entrada no mercado europeu. MODELO INOVADOR A extração da candeia é feita em uma fazenda certificada de cerca de 400 hectares na região de Carrancas (MG). Há também produtores terceirizados, mapeados por uma equipe de 25 profissionais, entre técnicos, agrônomos e engenheiros florestais. Uma fábrica em Pouso Alegre, também em Minas Gerais, emprega 60 funcionários diretos e transforma a planta em ativos para uso na indústria. Cada metro cúbico de candeia tem potencial para gerar até 8 kg de óleo essencial, de onde é retirado o alfa-bisabolol. Os sócios ainda encontram dificuldades para fazer deslanchar o modelo de negócios inovador, centrado no relacionamento entre fazendeiros e comunidades. O fornecimento da matéria-prima depende de aspectos sazonais e da descoberta de novas áreas de manejo. "Demoramos três anos só para criar um modelo de rastreabilidade da cadeia da candeia. Agora o desafio é fazer com que o mercado aceite pagar um valor a mais pelo extrato certificado", diz Cristina. Hoje, 95% da produção do óleo vai para o exterior: o produto é utilizado por gigantes como L?Oreal, Beiersdorf (dona da Nivea) e Symrise, da área de perfumaria. No Brasil, o principal comprador é a Natura, que criou uma linha de produtos de maquiagem com os ativos certificados. Apesar das dificuldades, os sócios já estão abraçando outras frentes de negócios. Além da candeia, estão estudando as cadeias de outros ativos naturais da biodiversidade brasileira - que o mercado conhecerá em breve. "Estamos trabalhando em ativos ?inéditos?, comprovados e de valor tecnológico para o mercado de cosméticos", diz Cristina.