Empreendedoras do sexo

- O Estado de S.Paulo

O mercado erótico está deixando de ser tabu e vira uma opção profissional para a nova geração

Preconceito. Mayara Medeiros conta que sua mãe ficou preocupada quando a viu trabalhando com filmes de sexo explícito, mas, felizmente, hoje ambas lidam bem com isso. Foto: Alex Silva/AE

 

 

 

O efervescente "mercado adulto" (ou erótico) nacional vive uma nova fase. Com a proliferação de novos negócios no País, o setor se profissionalizou e vem perdendo, aos poucos, o estigma de bicho-papão. Um dos indicativos dessa mudança é o ingresso cada vez maior de mulheres no mundo do sexo - não como atrizes pornôs, mas sim como empresárias e profissionais liberais.

 

Há jovens diplomadas e com currículos invejáveis, que veem aí uma oportunidade de ganhar dinheiro. Clarissa Reche, por exemplo, de 23 anos e formada em Desenho Industrial, projetou o primeiro massageador íntimo feminino nacional, batizado de Alice. E foi contratada para reunir os principais artistas brasileiros de arte erótica e montar uma exposição durante a Erotika Fair, a mais importante feira do setor.

 

Mayara Medeiros, de 21 anos, faz faculdade de Artes Visuais e trabalha em produções de filmes de sexo explícito com linguagem moderninha, no estilo chamado "altporn" (ou pornô alternativo). Ela contrata pessoal, loca espaço para a filmagem e, entre muitas outras responsabilidades burocráticas, acompanha as gravações.

 

Outra que se aventurou nesse universo é Valéria Dilella, de 33 anos, formada em Comércio Exterior, com pós-graduação em Marketing, MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e fluência em três idiomas: inglês, francês e italiano. Com uma amiga, abriu a importadora de produtos eróticos Uniqua. Apesar do pouco tempo no ramo, comemora os os resultados: não enriqueceu, mas consegue investir boa parte de seu lucro no próprio negócio, para fazê-lo prosperar.

 

Com atuação em artes sensuais, Lu Riva, de 31 anos, aplica seus conhecimentos em Publicidade e Propaganda no novo trabalho. Abandonou seu emprego como analista de produtos de uma grande instituição bancária para ganhar a vida como professora de pompoarismo, strip-tease e sedução. Detalhe: ela é casadíssima, o maridão sempre lhe deu a maior força e, hoje, Lu tem rendimentos três vezes maiores.

 

Seriedade. Após o choque inicial de familiares e amigos, todas elas mostraram que esse segmento proporciona oportunidades de trabalho como os demais. Para a publicitária Paula Aguiar, especialista em mercado erótico e comércio eletrônico, apesar do preconceito que ainda paira sobre esse setor, a postura do novo empreendedor faz toda a diferença. "Essa geração enxerga isso como business, não tem vergonha e se posiciona de forma séria e correta", atesta Paula.

 

A maioria (83%) dos negócios do mercado erótico brasileiro só tem cinco anos de vida, conforme observa Paula, que é sócia da A.T. E.N.A.S - Agência Tecno-Estratégica para Negócios e Ação Segmentada. Além disso, há 70% de consumo feminino, e o setor busca novas estratégicas para fazer esse porcentual subir. As novas empreendedoras estão de olho nessa demanda.

 

 

 

 

DE OLHO NO DÓLAR

 

 

"Estava fazendo o MBA de Gestão Empresarial na FGV quando uma amiga, dona de uma rede de sex shop, pediu um estudo de mercado, pois queria comprar os produtos diretamente do fabricante para diminuir custos. Mas ela perdeu o entusiasmo devido à burocracia necessária para importar. Então sugeriu que eu abrisse minha própria importadora. Como gosto de ter liberdade para trabalhar, não hesitei. Chamei uma amiga para ser sócia e inauguramos nossa empresa no ano passado, bem no meio da crise. Quase morri com as oscilações do dólar. Minha mãe, que é evangélica, não pulou de alegria quando soube, mas respeitou meu trabalho. Meu namorado considera um negócio como outro qualquer. Lançamos uma loja virtual e só vendemos para o atacado. "

 

Valéria Dilella, 33 anos, sócia da importadora de produtos eróticos Uniqua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRABALHO ACADÊMICO

 

 

"Projetei o massageador como trabalho de conclusão de curso, na faculdade de Desenho Industrial, no Mackenzie. Não tinha a intenção de chocar nem de fazer graça. Pensei que essa seria uma forma de ajudar a mulher a conhecer seu próprio corpo e quebrar o tabu que envolve sua sexualidade.

Fui conhecer melhor o mercado erótico, visitando, pela primeira vez, a Erotika Fair. Descobri que não existia produtos desenvolvidos no Brasil, só cópias de importados. Pesquisei sobre fisiologia feminina e masculina.

Quando minha mãe soube, levou um susto, mas, depois que expliquei direitinho, me apoiou e dediquei o TCC a ela. Meu pai achou engraçado. Como sempre mantive uma postura séria, em nenhum momento sofri preconceito na faculdade. Tirei 10 e agora vou tentar vender o Alice para alguma empresa."

 

Clarissa Reche, 23 anos, designer que desenvolveu o primeiro massageador feminino 100% nacional

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REALIZADORA

 

 

 

"Faço produção executiva para um grupo de teatro e acabei aceitando o convite para cuidar da agenda das porno stars que participavam do Erotika Vídeo Awards de 2008.

Quando minha mãe viu que comecei a trabalhar com filmes de sexo explícito, ficou preocupada. Hoje, lida bem com isso. Na verdade, cuido de uma extensa burocracia. Mas, por ser nova e mulher, tenho de me impor em dobro.

Hoje trabalho na Xplastic, a principal produtora de altporn no Brasil. Não tenho salário mensal, mas participação nos lucros. Isso me ajuda a pagar a faculdade de Artes Visuais."

 

Mayara Medeiros, 21 anos, produtora de filmes altporn

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONHECIMENTO DE CAUSA E UMA NOVA CARREIRA

 

 

"Nunca imaginei trabalhar no mercado erótico. Isso aconteceu por causa das infecções urinárias que atormentaram minha vida dos 23 aos 25 anos. Passei por vários médicos e fiz infinitos exames, tomei todo tipo de remédio com dosagens altíssimas, sem resultado algum.

Estava tão desolada que resolvi estudar sobre trato urinário para entender o que acontecia comigo. Caí no pompoarismo porque é indicado para tratar incontinência urinária. Passei a praticá-lo e, em três meses, não tinha mais nada. Os médicos explicaram que o pompoar aumenta o fluxo sanguíneo na região e, consequentemente, a imunidade. Voltei a fazer sexo com meu marido e a ter muito mais prazer. Contei para as amigas, elas pediam para ensiná-las.

Já dava aula de dança do ventre por hobby e decidi ensinar também pompoarismo. Saí do emprego e lancei um livro e DVD. Hoje, vivo das aulas. Claro que enfrentei preconceito, mas basta trabalhar com seriedade para desarmar as pessoas."

 

Lu Riva, 31 anos, professora de pompoarismo e artes sensuais